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A violência invisível que se perpetua

A morte de uma mulher por feminicídio não encerra somente uma história. Ela inaugura outras, que frequentemente são invisíveis, silenciosas e duradouras. Contudo, o que raramente se considera é que, junto com a vítima, uma rede inteira de vidas é completamente estraçalhada.

O Brasil registrou milhares de casos de feminicídio nos últimos anos: ao menos 2.149 assassinatos em 2025, quase seis por dia. E cada uma dessas mortes deixou marcas que não cabem nas estatísticas, mas ajudam a dimensionar o abismo.

Estima-se que cerca de 2,5 mil crianças e adolescentes por ano perdem as suas mães para esse tipo de crime, enquanto levantamentos recentes apontam mais de 4 mil órfãos apenas desde 2023.

Entretanto, o dado mais devastador talvez seja outro. Em grande parte dos casos, o autor do crime é o próprio pai. A equação é cruel: perde-se a mãe para a violência doméstica e o pai para o sistema prisional. Um duplo abandono parental.

Essas crianças e adolescentes tornam-se o que especialistas passaram a chamar de "vítimas indiretas" do feminicídio. Porque, na prática, elas carregam consequências diretas e profundas, como traumas psicológicos, depressão, ansiedade, dificuldades escolares e de socialização, além de maior risco de reproduzir os ciclos de violência.

Há ainda uma outra camada de dor pouco discutida: a dos avós. Quando o feminicídio é cometido tendo o próprio filho como autor do crime, eles perdem o convívio com os netos, os quais frequentemente ficam com os avós da vítima assassinada ou são levados para o sistema de acolhimento.

Diante de tamanha tragédia social, a resposta do Estado ainda é insuficiente. Embora exista previsão de pensão para filhos de vítimas, sua implementação é recente, restrita e pouco conhecida. E, mais grave, o apoio psicossocial, algo essencial, segue como lacuna. O que se oferece, na maioria dos casos, é um benefício financeiro mínimo diante de uma perda irreparável.

Faltam políticas públicas estruturadas, acompanhamento psicológico continuado, suporte às famílias que acolhem essas crianças e estratégias de longo prazo para evitar que a violência herdada se perpetue. Falta, sobretudo, reconhecer que essas crianças são vítimas centrais de um crime que insiste em ser tratado apenas como estatística criminal.

O feminicídio não termina no ato, ele permanece ecoando. Ignorar os órfãos do feminicídio é permitir que a violência continue agindo de forma mais lenta, mas igualmente devastadora.

Quando o Estado falha em ampará-los, isso não se configura em apenas omissão, mas também em continuidade.