Por:

Do cravo à ferradura atual em Portugal

A Revolução dos Cravos permanece como o momento fundador da democracia portuguesa contemporânea, mas o seu peso político não se esgota na evocação ritual de abril. Mais do que uma rutura com o Estado Novo, foi a abertura de um processo ainda em curso: o de definir, em cada geração, os contornos da liberdade, da igualdade e da participação cívica.

Cinco décadas depois, a herança de 1974 continua a ser disputada no espaço público. Para uns, abril é sinónimo de direitos sociais e de um Estado comprometido com a coesão; para outros, é sobretudo a consagração das liberdades individuais e da alternância democrática. Esta tensão não diminui a importância do acontecimento: pelo contrário, demonstra a sua vitalidade. Um legado que não é questionado tende a fossilizar-se; um legado debatido permanece politicamente fértil.

A atual paisagem política portuguesa, marcada pela fragmentação partidária e por uma crescente volatilidade eleitoral, evidencia como os valores de abril são simultaneamente consensuais e insuficientes para responder aos desafios contemporâneos.

A desconfiança nas instituições, o afastamento dos cidadãos da participação política e a pressão de fenómenos globais — das desigualdades económicas à transição digital — exigem mais do que a memória da revolução: exigem a sua atualização.

Importa, por isso, resistir a duas tentações. A primeira é a da mitificação acrítica, que transforma abril num símbolo intocável, esvaziado de conteúdo político concreto. A segunda é a da relativização, que desvaloriza conquistas fundamentais em nome de uma leitura utilitarista do presente. Entre estas posições, há um caminho exigente: o de reconhecer que a democracia não é um ponto de chegada, mas um processo contínuo de construção coletiva.

Se a Revolução dos Cravos ensinou algo, foi que a mudança política profunda depende da convergência entre vontade popular e responsabilidade institucional. Hoje, esse ensinamento permanece atual e urgente, sobretudo perante a necessidade de reforçar a confiança pública, combater a apatia cívica e garantir que os princípios democráticos não se diluem na rotina governativa.

Em tempos de incerteza, recordar abril não deve ser um exercício nostálgico, mas um compromisso renovado com a qualidade da democracia. Portugal não precisa apenas de celebrar o passado; precisa de o traduzir em ação no presente.