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Entre a memória curta e o risco permanente

A segurança hídrica de São Paulo segue sustentada por um paradoxo incômodo: após enfrentar uma das mais graves crises de abastecimento de sua história recente, o estado ainda opera como se o problema tivesse sido superado, e não apenas adiado. A sensação de normalidade, alimentada por períodos de chuva e reservatórios em níveis aceitáveis, mascara uma vulnerabilidade estrutural que permanece intacta.

O Sistema Cantareira, principal fonte de abastecimento da Região Metropolitana, continua simbolizando essa fragilidade. Seus níveis oscilam conforme o regime de chuvas, mas o modelo de gestão permanece excessivamente dependente de fatores climáticos cada vez mais imprevisíveis. Em um cenário de mudanças climáticas, confiar na regularidade das chuvas deixou de ser estratégia, é aposta. Eventos extremos, como estiagens prolongadas e chuvas concentradas, tendem a se intensificar, tornando o sistema ainda mais instável.

O avanço urbano desordenado agrava o quadro. Áreas de manancial seguem pressionadas pela ocupação irregular, enquanto a demanda cresce de forma contínua. A impermeabilização do solo reduz a capacidade de recarga natural dos reservatórios, ao mesmo tempo em que amplia riscos de enchentes. O resultado é uma equação conhecida: mais consumo, menos previsibilidade e infraestrutura que não acompanha o ritmo da expansão.

Apesar dos alertas recorrentes de especialistas, o poder público ainda reage mais do que antecipa. Investimentos em diversificação de fontes, redução de perdas na distribuição e preservação ambiental caminham em ritmo aquém do necessário. A crise passada gerou medidas emergenciais e campanhas de conscientização, mas não consolidou uma política de longo prazo capaz de enfrentar o problema em sua raiz.

A questão central não é se São Paulo enfrentará nova crise hídrica, mas quando e com que grau de preparação. Ignorar essa realidade é repetir um erro já conhecido: tratar a água como recurso garantido em vez de bem estratégico, essencial à estabilidade econômica e social.

Um estado que concentra o maior peso econômico do país não pode depender de soluções improvisadas para algo tão essencial. A segurança hídrica precisa deixar de ser pauta de emergência e se tornar política permanente, baseada em planejamento, investimento e responsabilidade compartilhada. Caso contrário, São Paulo continuará refém de sua própria imprevisibilidade, à espera da próxima estiagem para lembrar daquilo que nunca deveria ter sido esquecido.