Por: Redação

Melhado: entregue às pressas, deixa riscos

A entrega da duplicação da Rodovia Miguel Melhado, em Campinas, expõe mais do que um investimento em infraestrutura: revela sinais claros de pressa política que acabaram sobrepondo etapas essenciais de segurança e de respeito à população diretamente afetada pela obra.

Embora a rodovia seja, sem dúvida, estratégica para a mobilidade regional e para o acesso ao Aeroporto de Viracopos, a forma como sua conclusão foi conduzida levanta questionamentos relevantes. A inauguração ocorreu em meio a entraves judiciais recentes, incluindo uma decisão que determinava a suspensão das remoções de moradores. Ainda assim, o processo seguiu adiante, com famílias deixando suas casas em um contexto de pressão e insegurança.

Relatos de moradores e de representantes legais apontam que as desocupações ocorreram em prazos inferiores ao estabelecido em acordo firmado com a Defensoria Pública, o que indica possível descumprimento de garantias mínimas. Soma-se a isso a percepção, entre os atingidos, de que houve aceleração das etapas finais da obra em razão do calendário político, uma prática recorrente em períodos pré-eleitorais e que precisa ser enfrentada com mais transparência e responsabilidade.

Outro ponto crítico é a ausência de infraestrutura básica de segurança no momento da entrega. A falta de passarela para travessia de pedestres em um trecho de intenso fluxo, com múltiplas faixas, não é um detalhe técnico: é um risco concreto à vida. A promessa de construção desse equipamento apenas para 2027 reforça a impressão de que a obra foi inaugurada antes de estar plenamente concluída do ponto de vista funcional.

Além disso, questionamentos sobre o licenciamento ambiental e a ausência de licença de operação definitiva colocam em xeque a regularidade da liberação da via. Obras públicas não podem ser tratadas como peças de vitrine política. Elas devem atender, de tudo, a critérios técnicos, legais e humanos.

É legítimo celebrar investimentos e melhorias viárias. Mas é igualmente necessário reconhecer quando a pressa compromete o resultado. No caso da Miguel Melhado, a entrega antecipada, sem garantias completas de segurança e com impactos sociais ainda recentes, deixa uma pergunta inevitável: a quem serviu, de fato, o tempo dessa inauguração?

Mais do que cortar fitas, governar exige responsabilidade com pessoas. E, neste caso, essa conta ainda parece em aberto.