Por: Ana Carolina Martins - Campinas

Paternidade: tempo de construir vínculo

A ampliação da licença-paternidade no Brasil, recém-sancionada, não se resume a apenas mais uma mudança trabalhista. Trata-se, sobretudo, de um reposicionamento simbólico e prático sobre o que significa cuidar e, ainda, quem deve cuidar.

Durante décadas, o nascimento de um filho foi tratado como um evento quase que exclusivo da mulher no campo do cuidado e responsabilidade cotidiana. Ele, o pai, ocupava um papel secundário, limitando-se a poucos dias de afastamento, tempo insuficiente diante de uma transformação que é, concomitantemente, física, emocional e estrutural na vida de qualquer família.

Ao ampliar gradualmente esse período de cinco para até 20 dias, o Brasil começa a corrigir uma distorção histórica, visto que o ponto central dessa mudança está além do tempo concedido ao pai. Está no reconhecimento de que os primeiros dias de vida de um recém-nascido exigem uma rede de apoio efetiva e afetiva, que forçosamente precisa ser construída dentro de casa.

Para a mulher, o puerpério é um período de intensa vulnerabilidade. Há o impacto físico do parto, as oscilações hormonais, o risco de depressão pós-parto e a adaptação a uma nova rotina marcada por privação de sono e novas demandas constantes.

Nesse contexto, a presença ativa do pai é uma necessidade imprescindível. Dividir tarefas, apoiar emocionalmente e compartilhar os cuidados com o recém-nascido é algo "desejável"... É imprescindível! Fundamentais para a saúde da mãe e da criança.

Ao mesmo tempo, a nova legislação também olha para o homem de forma mais realista. Afinal, tornar-se pai não pode ser tratado como um evento periférico. É uma ruptura na sua rotina, uma reconfiguração de suas prioridades e, certamente, o início de um processo de aprendizado intenso. Garantir esse tempo de afastamento é permitir que o vínculo com o filho se construa desde o início, e não encaixado nos intervalos do trabalho.

Em cidades como Campinas, onde a dinâmica urbana muitas vezes impõe jornadas longas e rotinas exaustivas, ganha ainda mais relevância. A possibilidade de o pai estar presente nos primeiros dias não é "um luxo", é um suporte concreto em um momento delicado de alta exigência emocional e física. É verdade que a ampliação será gradual e que o prazo máximo de 20 dias ainda está longe de ser o ideal, contudo, o avanço não deve ser minimizado, porque ele aponta para uma mudança de mentalidade: a de que cuidar não é uma atribuição exclusiva feminina.