Por: Ana Carolina Martins - Campinas

O perigoso estopim da intolerância

É impossível não lembrar do célebre livro Fahrenheit 451 ao assistir as cenas de um grupo de jovens que decide, por conta própria, apagar, com tinta branca, uma manifestação artística no âmbito de uma das mais bem conceituadas universidades do país, a Unicamp.

A entrada de integrantes do Movimento Brasil Livre (MBL) no campus, no primeiro dia de aula, para, supostamente, "restaurar" com tinta branca um mural produzido por artistas da comunidade acadêmica, não pode ser tratada como mero e inocente de zelo urbano.

A justificativa de combate à pichação, ainda que amparada em interpretações legais, perde qualquer legitimidade quando acompanhada de intimidação e confronto físico. As imagens divulgadas mostram troca de agressões, disputa por lata de tinta, empurrões e chutes. Se houve, de fato, violência de ambos os lados, ela precisa ser apurada. Contudo, o estopim foi a ação deliberada, com forte carga política, realizada por pessoas de fora da comunidade universitária em ambiente sabidamente sensível.

Universidade não é palanque improvisado nem cenário para performance ideológicas É espaço de produção de conhecimento, de diversidade estética, de pluralidade de pensamento, incluindo-se o dissenso. Quando um grupo externo decide atravessar os seus portões com o objetivo de apagar símbolos construídos coletivamente, o que se anuncia não é diálogo, mas imposição.

No romance de Ray Bradbury, bombeiros não apagam incêndios. Eles queimam livros. E o fazem porque a diversidade de ideias é vista como ameaça à ordem. O fogo, ali, é um instrumento de controle. É uma tentativa de reduzir o mundo à monotonia confortável de uma única narrativa.

Guardadas as proporções, o gesto de cobrir um mural universitário carrega simbolismo semelhante. Em Fahrenheit 451, a censura não começa, necessariamente, com grandes fogueiras. Ela se constrói a partir da naturalização da ideia de que certas vozes "atrapalham", de que certos pensamentos "poluem", de que determinadas manifestações devem ser eliminadas em nome de um suposto "bem maior".

A universidade, por essência, é o oposto da sociedade distópica criada por Bradbury. É o espaço onde o contraditório deve coexistir, o incômodo, fazer parte do aprendizado, a pluralidade estética e ideológica, ser combustível e não ameaça.

Quando um grupo externo invade esse ambiente para "corrigir" visualmente aquilo que considera inadequado, substitui o debate pela imposição simbólica. E quando essa imposição descamba para agressão física, a metáfora se torna ainda mais perturbadora: o argumento é substituído pela força.