Quase metade das mortes por câncer no Brasil poderia ser evitada. O dado é duro, incômodo e revelador: 43,2% dos óbitos provocados pela doença no país estão ligados a falhas que vão da prevenção insuficiente ao diagnóstico tardio e ao acesso precário ao tratamento. Em números absolutos, isso significa que, dos cerca de 253 mil brasileiros diagnosticados em 2022 que devem morrer até cinco anos após a detecção, mais de 109 mil vidas poderiam ser preservadas.
Não se trata de um detalhe estatístico. São famílias desfeitas, trajetórias interrompidas, talentos desperdiçados. E, sobretudo, é um retrato das nossas fragilidades estruturais.
O estudo internacional publicado na revista The Lancet coloca o Brasil abaixo da média global de mortes evitáveis, que é de 47,6%, mas isso não é motivo de conforto. Em países do norte da Europa, o percentual gira em torno de 30%. Na Suécia, por exemplo, pouco mais de três em cada dez mortes poderiam ser evitadas. Aqui, são mais de quatro em cada dez.
A diferença traduz o abismo entre sistemas de saúde que funcionam de maneira integrada e aqueles que ainda operam com gargalos crônicos.
O levantamento mostra que parte expressiva dessas mortes poderia ser prevenida antes mesmo de a doença surgir. Tabagismo, consumo de álcool, excesso de peso, exposição à radiação ultravioleta e infecções evitáveis respondem por uma fatia significativa dos casos. São fatores conhecidos há décadas. Combatê-los exige políticas públicas consistentes, campanhas permanentes, regulação eficaz e educação em saúde, não ações pontuais.
Outra parcela das mortes está associada ao diagnóstico tardio e ao acesso desigual ao tratamento. Nesse ponto, o Brasil convive com uma contradição dolorosa: possui um sistema público universal, mas ainda enfrenta filas para exames, demora na confirmação diagnóstica e desigualdade regional na oferta de terapias modernas.
Em câncer, tempo é prognóstico. Cada semana de atraso pode significar a diferença entre cura e progressão da doença.
O contraste internacional reforça a dimensão do desafio. Enquanto países africanos enfrentam proporções dramáticas de mortes evitáveis, superiores a 60%, nações com sistemas organizados e foco em rastreamento conseguem reduzir significativamente a letalidade. O Brasil não está no pior cenário, mas tampouco, pelo bem de tantas famílias, pode se contentar com a mediania.