Por: Redação

Uma década perdida no transporte coletivo

A decisão da Prefeitura de Campinas de adiar, mais uma vez, o cronograma da licitação do transporte coletivo expõe um problema que já não pode ser tratado como pontual. O processo, que se arrasta há quase dez anos, revela fragilidades técnicas, falhas de planejamento e, sobretudo, a incapacidade do poder público de entregar uma política estruturante essencial para a cidade.

O novo adiamento, motivado por inconsistências apontadas pelo Tribunal de Contas do Estado, não é apenas um ajuste burocrático. Trata-se de erro em cálculos básicos que impactam diretamente o custo da operação, como o Fator de Utilização e a estimativa de benefícios trabalhistas. São falhas que deveriam ter sido identificadas e corrigidas muito antes da publicação do edital, especialmente em um processo que mobilizou milhares de páginas, dezenas de documentos e anos de discussão.

Embora seja correto e necessário que o município respeite as determinações dos órgãos de controle, a recorrência desses apontamentos evidencia que o problema vai além da fiscalização externa. A cada correção emergencial, cresce a percepção de improviso em um projeto que deveria ser sólido, transparente e tecnicamente incontestável.

O mais grave, no entanto, não está apenas nos erros de planilha. A demora prolongada compromete a confiança da população e impede que Campinas avance em um modelo de mobilidade compatível com seu porte. Enquanto o edital patina, o transporte coletivo segue perdendo usuários, competitividade e qualidade, aprofundando desigualdades territoriais e sociais.

Especialistas alertam que a discussão não pode se limitar ao cumprimento formal da legislação. É preciso clareza sobre que sistema a cidade deseja para os próximos 15 anos. Um transporte coletivo eficiente exige prioridade real no sistema viário, corredores exclusivos, integração inteligente e políticas tarifárias que promovam inclusão. Sem isso, qualquer concessão corre o risco de perpetuar um modelo caro, lento e pouco atrativo.

Campinas perdeu tempo demais. Uma licitação dessa magnitude não pode ser apenas legalmente correta; precisa ser estratégica, ambientalmente responsável e socialmente justa. A insistência em remendos técnicos e adiamentos sucessivos cobra um preço alto: quem paga a conta é a população que depende diariamente do ônibus.

Mais do que corrigir planilhas, a Prefeitura precisa responder à pergunta central que permanece sem resposta há quase uma década: qual transporte coletivo Campinas quer? E para quem?