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Entre o sagrado e o desrespeito

O dia 2 de fevereiro amanheceu, como todos os anos, com o som do mar misturado a flores, velas, perfumes, bilhetes e pedidos. Para milhões de brasileiros, foi o dia de Iemanjá, a Rainha do Mar, mãe nas religiões de matriz africana, símbolo de proteção, acolhimento, fertilidade e cuidado. Não é apenas uma data no calendário. É um marco espiritual, cultural e histórico que atravessa séculos de resistência, fé e identidade.

A cena se repete nas praias: pessoas vestidas de branco, oferendas depositadas com respeito, orações silenciosas e também o gesto popular de pular ondas. Poucos se lembram, mas esse costume tão difundido no Réveillon nasceu justamente dos rituais ligados a Iemanjá. Saltar as ondas, fazer pedidos, entrar no mar com reverência não é apenas uma superstição turística. É herança direta das religiões afro-brasileiras, apropriada ao longo do tempo por uma sociedade que, muitas vezes, consome o símbolo, mas rejeita sua origem.

E é aí que mora uma das maiores contradições. Enquanto milhares pulam ondas, vestem branco e pedem proteção à beira-mar, as mesmas tradições que deram origem a esses rituais seguem sendo alvo de preconceito, intolerância e violência simbólica. Terreiros são atacados, líderes religiosos são desrespeitados e expressões de fé ainda são tratadas como algo menor, folclórico ou, pior, demonizado.

O desrespeito também aparece na linguagem, quase sempre naturalizado. Frases como "vou te dar pra Iemanjá", "volta pro mar, oferenda" ou o uso do nome da orixá como ameaça, piada ou ofensa revelam muito mais do que falta de informação. Revelam como o sagrado do outro é banalizado, esvaziado de sentido e transformado em deboche. É o nome de uma divindade sendo usado em vão, como se não carregasse fé, história, dor e resistência.

Celebrar Iemanjá exige mais do que flores no mar. Exige reconhecer que as religiões afro-brasileiras foram e ainda são perseguidas. Exige entender que o Brasil que pula ondas é o mesmo que, muitas vezes, vira o rosto para o racismo religioso. Não há coerência em pedir proteção à Rainha do Mar enquanto se nega respeito aos seus filhos e filhas de fé.

O mar recebe tudo. Recebe pedidos, lágrimas, agradecimentos e também as contradições de um país que ama seus símbolos, mas ainda luta para respeitar suas raízes. Que este 2 de fevereiro tenha sido mais do que um ritual repetido. Que tenha sido um convite à reflexão. Porque respeitar Iemanjá é respeitar a diversidade, a ancestralidade e o direito de cada brasileiro viver sua fé sem medo, sem ataque e sem ironia.

Odoyá não é apenas uma palavra bonita. É um chamado ao respeito.