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E quando a rede erra?

As redes sociais se tornaram uma das maiores forças de mobilização do nosso tempo. Graças a elas, causas ganham visibilidade, campanhas solidárias arrecadam recursos em horas e injustiças que antes ficariam restritas a um bairro ou a uma cidade pequena hoje alcançam o país inteiro. Há um lado virtuoso nessa engrenagem digital: dar voz a quem não tem, pressionar autoridades, sensibilizar a opinião pública e transformar indignação em ação concreta.

O caso da morte do cachorro Orelha é um exemplo disso. A comoção nacional, a mobilização por justiça e a pressão popular mostram como a internet pode amplificar uma causa legítima. O problema começa quando a pressa em apontar culpados, a sede por engajamento e a lógica do compartilhamento sem checagem transformam a rede em tribunal. Nesse ambiente, nomes viram alvos, perfis são caçados e pessoas comuns passam a ser tratadas como vilãs, mesmo sem qualquer ligação com o fato.

Foi o que aconteceu com um menino do interior de São Paulo, que tem o mesmo nome de um dos jovens envolvidos no caso, com a única diferença de uma letra no sobrenome, escrito com S ou com Z. Bastou essa coincidência para que ele fosse confundido, exposto e atacado virtualmente. A partir daí, a engrenagem da desinformação fez o resto: prints, mensagens, ameaças e uma avalanche de ódio que não distingue inocentes de culpados. Para quem está do outro lado da tela, não existe nuance. Existe apenas o impulso de atacar.

Esse tipo de erro revela o lado mais cruel das redes sociais. A mesma ferramenta que ajuda a viralizar campanhas do bem também potencializa linchamentos morais. A mesma plataforma que conecta pessoas também desumaniza, reduzindo indivíduos a nomes, fotos e rótulos. Quando isso acontece, a justiça deixa de ser um valor e vira espetáculo. O que deveria ser cobrança por responsabilização se transforma em caça às bruxas.

É preciso refletir sobre esse paradoxo. Defender causas justas não pode significar atropelar direitos básicos, como o de não ser acusado sem provas. A indignação é legítima, mas ela não pode ser combustível para destruir a vida de quem nada tem a ver com o caso. Cada compartilhamento impensado, cada comentário agressivo, cada exposição irresponsável contribui para um ambiente em que a verdade importa menos do que a velocidade.

As redes sociais não são boas ou más por si só. Elas refletem escolhas humanas. Cabe a cada usuário decidir se vai usá-las para informar, mobilizar e ajudar, ou para julgar, atacar e destruir. O caso do menino confundido por causa de uma letra no sobrenome é um alerta. Na era digital, um erro mínimo pode gerar um estrago máximo. E, muitas vezes, quem paga o preço é justamente quem não tem culpa alguma.