O recente caso envolvendo o influenciador chinês Peter Liu, condenado por manter uma mulher em condições análogas à escravidão por três décadas, expõe uma ferida que o Brasil insiste em ignorar ou tratar como se fosse uma exceção, quando, na verdade, é estrutural: o trabalho escravo contemporâneo, especialmente no ambiente doméstico, segue vivo, silencioso e naturalizado.
O acordo judicial, que encerrou o processo com o ressarcimento da vítima no valor de R$ 700 mil e o reconhecimento do vínculo empregatício, pode até representar um desfecho jurídico correto, mas está longe de ser um encerramento moral ou social desse lamentável episódio. Afinal, não há condenação ou um valor capaz de apagar os 30 anos de exploração, invisibilidade e violação de direitos básicos da vítima.
É pertinente reconhecer que Peter Liu é um imigrante chinês, cuja cultura foi construída com referências sociais, familiares e laborais distintas das consolidadas na legislação brasileira. A imigração, no entanto, não suspende a vigência e aplicação das leis, assim como não autoriza a reprodução de práticas que afrontam princípios universais da dignidade humana. O respeito à diversidade cultural não pode nem deve ser confundido com tolerância a violações de direitos fundamentais.
O Brasil tem uma história marcada a ferro e brasa pela escravidão formal por mais de 300 anos. E esse é um passado que permanece e se manifesta hoje em relações assimétricas, em vínculos informais prolongados, em jornadas exaustivas travestidas de "ajuda", "favor" ou "parte da família". É justamente nesse terreno ambíguo que o trabalho análogo à escravidão prospera, sobretudo quando envolve mulheres, pessoas pobres, migrantes internos e trabalhadores domésticos.
Também chama atenção o contraste entre a imagem pública do influenciador, com milhões de seguidores, discurso de cuidado, saúde e equilíbrio — e a realidade privada revelada pelo processo. Casos como este reforçam a necessidade de não se confundir notoriedade, sucesso ou carisma com integridade ética. A violência, frequentemente, esconde-se atrás de discursos bem-acabados.
O combate ao trabalho escravo contemporâneo exige muito mais do que fiscalizações e decisões judiciais. Exige debate público, educação em direitos, acolhimento às vítimas e, sobretudo, a coragem de nomear o problema sem rodeios. Não se trata de" demonizar" culturas ou imigrantes, mas de afirmar, em alto e bom som, que no Brasil, assim como qualquer Estado democrático, a dignidade humana não é negociável.
Quando a cultura vira desculpa, o direito falha. E quando o direito falha, a sociedade inteira é colocada em dívida.