Por: Moara Semeghini - Campinas

Laudo superficial justifica corte de ipê

Campinas assiste, nos últimos meses, a uma sequência inquietante de supressões e podas de árvores que levanta dúvidas legítimas sobre os critérios técnicos, a transparência das decisões e o compromisso do poder público com a preservação ambiental urbana. São ações que, somadas, desenham um cenário de fragilidade na política de arborização da cidade.

Há casos emblemáticos. Um ipê-roxo, espécie imune ao corte por lei municipal, foi suprimido pelo Corpo de Bombeiros em frente à Igreja Nossa Senhora das Dores, no Cambuí, episódio hoje sob investigação do Ministério Público. Em outro ponto da cidade, uma árvore considerada saudável pelo próprio Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente (Comdema) foi cortada com aval da Prefeitura. Soma-se a isso a recorrência de podas drásticas realizadas pela CPFL, frequentemente denunciadas por moradores, especialistas e vereadores como excessivas e incompatíveis com boas práticas de manejo arbóreo.

O episódio mais recente, porém, simboliza com clareza a situação: o corte de um ipê-rosa adulto, com mais de 15 metros de altura e estimados 50 anos, no bairro Guanabara. A árvore, segundo especialistas do Comdema, tinha alto valor ambiental e paisagístico. Ainda assim, foi suprimida com base em um laudo técnico fundamentado apenas em análise visual, sem exames internos mais aprofundados, como tomografia de impulso ou resistografia, recursos previstos em contratos e recomendados para árvores desse porte.

A legislação municipal e o próprio Guia de Arborização Urbana de Campinas são claros ao estabelecer que a supressão deve ser o último recurso, adotado apenas quando não há alternativas técnicas de preservação. Árvores nativas, antigas e de grande porte não são obstáculos urbanos: são infraestrutura verde, prestam serviços ambientais essenciais, regulam a temperatura e aliviam o calor cada vez mais presente, melhoram a qualidade do ar e constroem identidade e memória coletiva.

Quando decisões irreversíveis como o corte são tomadas sem o devido rigor técnico, a cidade perde mais do que sombra ou paisagem: perde confiança. Confiança de que a lei é respeitada, de que os conselhos ambientais são ouvidos e de que a preservação não cede à pressa, à conveniência ou à terceirização acrítica de responsabilidades.

Campinas precisa urgentemente rever protocolos, fortalecer a fiscalização, exigir transparência e garantir que cada árvore suprimida seja, de fato, uma exceção, nunca a regra. O verde urbano não pode continuar caindo antes que todas as perguntas sejam respondidas.