Dizem que o ano só começa de verdade depois do Carnaval. A frase é repetida como se fosse um mantra coletivo, um acordo silencioso para adiar compromissos, decisões e responsabilidades de início de ano. Mas, para os adultos que pagam contas, os intitulados "adultos funcionais", essa ideia não passa de uma mentira lavada. O calendário até pode esperar, mas o boleto não.
Logo nos primeiros dias de janeiro, a realidade bate à porta. O carnê do IPTU já está disponível, o IPVA chega sem pedir licença e outras despesas típicas do início do ano completam o cenário. Material escolar, seguros, mensalidades reajustadas, cartões ainda inchados pelas compras de fim de ano. O ano novo começa, mas o bolso, muitas vezes, termina o anterior no vermelho.
Em 2026, essa sensação de "ano suspenso" se estende por um período considerável. Do dia 1º de janeiro até o início do Carnaval, em 16 de fevereiro, são 46 dias. Um mês e meio de um limbo simbólico, em que muitos insistem em acreditar que nada começou de verdade, quando tudo já está acontecendo e os prazos já venceram. É nesse intervalo que mora o perigo.
A falsa ideia de que ainda estamos em modo férias pode levar a decisões financeiras precipitadas ou, pior, pode levar à completa ausência de planejamento. Parcelamentos assumidos sem cálculo, gastos justificados pelo "depois eu vejo" e a esperança de que o problema se resolva sozinho após a Quarta-feira de Cinzas. Mas, as contas não entram em recesso. Começar o ano endividado não é apenas um reflexo de dezembro. É, muitas vezes, consequência da falta de atenção a esse período inicial, em que ajustes poderiam ser feitos, prioridades revistas e excessos contidos.
O início do ano deveria ser um momento de cuidado. De olhar para o orçamento com honestidade, renegociar o que for possível, estabelecer limites claros e entender que responsabilidade financeira não combina com adiamento. Não é sobre abrir mão de lazer, mas sobre equilíbrio. É sobre saber que descanso e festa não anulam os compromissos.
Talvez o ano não comece depois do carnaval porque, na verdade, ele nunca parou. O relógio segue correndo desde a virada e a cada decisão tomada, ou evitada, entre os meses de janeiro e fevereiro tem impacto direto nos meses seguintes. O desafio está em atravessar esse "limbo" com consciência.
Porque, quando o confete cai no chão e a folia acaba, a vida segue exatamente do ponto em que foi deixada.