A França tem razões sólidas para vetar o acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul, sobretudo se quiser manter coerência entre seu discurso político, seus compromissos ambientais e a proteção de seu modelo social e agrícola. Não se trata de rejeitar o comércio internacional em si, mas de reconhecer que este acordo, tal como está formulado, impõe custos desproporcionais a setores estratégicos franceses e europeus, sem garantias reais de benefícios equivalentes.
Em primeiro lugar, o acordo ameaça diretamente a agricultura francesa, especialmente a pecuária. Produtores europeus são submetidos a normas rigorosas em matéria sanitária, ambiental e de bem-estar animal, o que eleva custos e reflete escolhas sociais legítimas. Em contrapartida, produtos oriundos do Mercosul podem entrar no mercado europeu sem obedecer aos mesmos padrões, criando uma concorrência desleal. Isso não apenas fragiliza milhares de agricultores franceses, como também mina a credibilidade das políticas agrícolas e ambientais da própria União Europeia.
Além disso, o impacto ambiental do acordo é profundamente preocupante. Países do Mercosul, em especial o Brasil, têm histórico recente de enfraquecimento da proteção ambiental e de aumento do desmatamento, inclusive na Amazônia. Facilitar exportações agrícolas ligadas à expansão de áreas de cultivo e pastagem contradiz frontalmente os compromissos climáticos assumidos pela França e pela UE no Acordo de Paris. Vetar o tratado é, nesse contexto, um gesto de coerência ecológica, não de protecionismo.
Outro ponto central é o desequilíbrio econômico do acordo. Os ganhos previstos concentram-se majoritariamente em grandes empresas exportadoras e em setores industriais específicos, enquanto os prejuízos recaem sobre agricultores, pequenas explorações familiares e territórios rurais já fragilizados. A promessa de crescimento econômico abstrato não compensa a perda de empregos locais, o aumento da precarização e o aprofundamento das desigualdades regionais.
Por fim, há uma questão democrática. O acordo foi negociado durante anos com baixa transparência e limitada participação da sociedade civil. Vetá-lo seria também um sinal de que decisões estruturantes para o futuro econômico, social e ambiental da Europa não podem ser tomadas sem amplo debate público e garantias claras de respeito a valores fundamentais.
Diante desses fatores, o veto francês não deve ser visto como um obstáculo ideológico, mas como uma escolha responsável em defesa da agricultura, do meio ambiente, da justiça social e da coerência política europeia.