Muitas vezes, ninguém. A enfermagem representa cerca de 70% da força de trabalho em saúde no Brasil. São quase 3 milhões de profissionais presentes em todos os municípios brasileiros. No SUS, estão na vacina, no curativo, na medicação, na UTI, na emergência, na orientação à família e na rotina que mantém o sistema de pé.
Mas quem cuida também adoece. E, no caso da enfermagem, esse adoecimento não pode ser tratado como responsabilidade individual. Ele nasce de uma combinação conhecida: reconhecimento insuficiente, salário baixo, acúmulo de plantões, descanso comprometido e uma ideia antiga de que cuidar é quase vocação.
Na pandemia, a enfermagem ganhou rosto, aplauso e visibilidade. Nas ruas, murais e homenagens colocavam esses profissionais no lugar de heróis. Passada a emergência, ficou claro que aplauso não protege a saúde mental de ninguém.
A enfermagem não apenas cuida. Também trata. Administra medicação, monitora sinais, executa procedimentos, acompanha riscos e sustenta a rotina assistencial ao lado dos médicos.
Há pessoas que se surpreendem quando uma enfermeira explica que médico não é seu chefe. A surpresa revela o quanto a enfermagem ainda é confundida com uma função de apoio, quando se trata de uma profissão com saber próprio, responsabilidade legal e protagonismo no cuidado.
O adoecimento aparece nos números. Entre 2012 e 2024, mais de 70 mil licenças por saúde mental foram registradas pelo INSS entre profissionais de enfermagem, segundo levantamento da Organização Internacional do Trabalho e do Ministério Público do Trabalho. Técnicos, auxiliares e enfermeiros figuram entre as categorias com maior número de afastamentos por razões psíquicas no país.
E esses dados ainda contam menos do que deveriam. A Previdência Social registra apenas afastamentos a partir de quinze dias. Ficam fora os episódios mais curtos, os profissionais estatutários com regimes próprios e muitos casos que nunca chegam a virar licença formal. O que aparece já é grave. O que não aparece talvez seja ainda maior.
Médicos também carregam o peso de decisões difíceis, jornadas extensas e perdas que nenhum diploma ensina a suportar. Quem trabalha na linha de frente do cuidado humano carrega uma carga emocional que raramente cabe no prontuário.
Mas quando se fala em reconhecimento, a conta não fecha.
O piso salarial da enfermagem, aprovado em 2022 depois de décadas de mobilização, foi uma conquista real. A lei fixou R$ 4.750 para enfermeiros, R$ 3.325 para técnicos e R$ 2.375 para auxiliares e parteiras. Mesmo assim, nasceu cercado de disputas, judicialização e limites.
No mesmo corredor, na mesma noite, diante do mesmo paciente. O enfermeiro recebe piso de R$ 4.750. O médico, R$ 20.329,70. É uma fotografia do mesmo sistema de saúde.
E há um efeito direto disso: o salário insuficiente empurra para o plantão extra. O plantão extra corrói o descanso. O descanso comprometido abre caminho para o adoecimento. O adoecimento gera afastamento. O afastamento sobrecarrega quem fica no plantão. E quem fica, por salário insuficiente, também acumula turno. O sistema se alimenta do próprio colapso.
Há ainda o problema dos repasses. A Constituição prevê assistência financeira complementar da União para ajudar estados, municípios e entidades filantrópicas a cumprir o piso. Mas, na prática, os valores nem sempre acompanham a realidade das folhas de pagamento, especialmente nos municípios menores, justamente onde o SUS costuma ser mais dependente e mais pressionado.
O piso existe. Chegar inteiro ao contracheque é outra história.
Também não é detalhe o fato de a enfermagem ser uma categoria majoritariamente feminina. Profissões associadas ao cuidado, historicamente ocupadas por mulheres, costumam receber menos prestígio, menos proteção e menos reconhecimento. O cuidado é tratado como vocação quando convém, mas como custo quando chega a hora de pagar.
O próprio Ministério da Saúde lançou, em 2025, a primeira Demografia da Enfermagem do Brasil. Ou seja, os números existem. O problema não é falta de diagnóstico.
É nesse ponto que o debate deixa de ser apenas trabalhista. Passa a ser também uma questão de saúde pública. Quando uma equipe trabalha exausta, o problema deixa de ser apenas interno. O cansaço afeta a continuidade do cuidado, aumenta afastamentos, pressiona quem fica no plantão e piora a resposta do serviço à população. Quando a enfermagem adoece, o SUS inteiro sente.
Cuidado também adoece. Reconhecer isso não é gratidão. É obrigação do Estado. Enquanto essa obrigação não for assumida, vocação continuará sendo o nome bonito que se dá à sobrecarga.
*Jornalista, mestre e doutorando em Gestão e Políticas Públicas pela Fundação Getulio Vargas