Correio da Manhã
Opinião

A universidade pública como farol da sociedade

A universidade pública como farol da sociedade

Muito se tem falado sobre a importância da garantia do pluralismo de opiniões nas universidades brasileiras, como um ponto central para o fortalecimento da democracia, da produção do conhecimento e da própria credibilidade das instituições acadêmicas perante a sociedade.

O documento elaborado por um amplo grupo de professores de universidades públicas, e recentemente publicado denominado "Restrições à Liberdade Acadêmica", surge em um momento particularmente sensível da vida nacional, marcado pelo crescimento da intolerância ao contraditório, pela polarização ideológica excessiva e pela tentativa recorrente de transformar ambientes acadêmicos — que deveriam ser espaços de reflexão crítica e liberdade intelectual — em territórios de alinhamento obrigatório a determinadas correntes de pensamento.

A universidade existe justamente para questionar certezas, confrontar ideias, estimular a diversidade intelectual e permitir que diferentes visões convivam de forma civilizada e produtiva. Sem pluralismo, não existe ciência forte. Sem liberdade acadêmica, não existe pensamento crítico. E sem neutralidade institucional, perde-se a confiança social necessária para que a universidade cumpra plenamente sua missão.

Os dados da pesquisa da More in Common são preocupantes: 59% dos brasileiros afirmam não confiar nas universidades públicas. Trata-se de um sinal de alerta que não pode ser ignorado. A universidade brasileira precisa urgentemente reconstruir pontes com a sociedade, recuperar sua capacidade de dialogar com diferentes setores sociais e reafirmar seu compromisso com os valores universais do conhecimento — e não com militâncias circunstanciais.

O manifesto destaca corretamente três pilares fundamentais para essa reconstrução institucional: neutralidade institucional, liberdade acadêmica e pluralismo. São princípios indispensáveis para que a universidade volte a ser percebida como um espaço de todos, e não apenas de grupos ideologicamente homogêneos.

Mas acredito que um quarto elemento precisa ser incorporado de forma definitiva a esse debate: a modernização da gestão universitária, com foco em resultados, transparência e impacto social.

As universidades públicas brasileiras precisam avançar na construção de ambientes modernos de gestão, capazes de monitorar, em tempo real, seus resultados em Ensino, Pesquisa, Extensão e Inovação, utilizando ferramentas de Inteligência Artificial, ciência de dados e sistemas de IoT. A sociedade precisa perceber, de forma objetiva, qual é o impacto concreto produzido pelas universidades na vida das pessoas, na geração de conhecimento, no desenvolvimento econômico, na inovação tecnológica e na melhoria das políticas públicas.

A universidade do século XXI não pode continuar limitada a modelos burocráticos concebidos no século XX, incompatíveis com a velocidade e a complexidade do mundo digital contemporâneo. As transformações tecnológicas, econômicas, culturais e geopolíticas exigem instituições mais abertas, mais transparentes, mais inovadoras e mais conectadas com a sociedade.

Cabe às universidades reassumirem protagonismo no debate nacional sobre o futuro do trabalho, da inteligência artificial, da bioeconomia, da transição energética, da indústria do conhecimento, das mudanças climáticas e da formação das novas competências humanas que serão exigidas nas próximas décadas.

Nesse contexto, surge uma pergunta inevitável: como os pré-candidatos à Presidência da República têm se posicionado sobre esses temas? Qual a visão que possuem sobre pluralismo acadêmico, liberdade de pensamento, neutralidade institucional, modernização da gestão universitária, inteligência artificial aplicada à administração acadêmica e aproximação efetiva da universidade com a sociedade e com o setor produtivo?

Essas já não são discussões periféricas. São temas centrais para o futuro da universidade pública brasileira — e, consequentemente, para o desenvolvimento econômico, social, empresarial e para o futuro do próprio país.

*Presidente da Associação Comercial do Rio de Janeiro