Correio da Manhã
Opinião

O menino misógeno

O menino misógeno

Final de um jogo de futebol, um dia corriqueiro, o time da casa ganha, seu melhor jogador tem destaque, porém, está suspenso do próximo jogo por acúmulo de cartões. Na entrevista, ao sair de campo, justifica a advertência: "Sávio é assim, acordou de chico e veio assim" e, por isso, a atuação do profissional havia sido ruim e injusta.

O eterno menino, como é chamado até hoje pela imprensa, no alto de seus 34 anos, usa expressão a uma referência de que as mulheres, em seus dias de menstruação, não estão em seu pleno discernimento. Além de ser um comentário misógino, por considerar as mulheres inferiores por menstruarem, também denota o machismo, afinal, "chico" deriva de "chiqueiro" e associa a menstruação a algo impuro e sujo.

O comentário não passou despercebido pela imprensa nacional e internacional, que o criticaram duramente. Após o episódio, reage com silêncio, em completa incompreensão do ato. Tem sido assim ao longo dos anos, condescendência: quando acerta, é um dos melhores do mundo e, quando erra, ainda é o menino.

Afinal, o que dissera de errado? Muitos pensam ser exagero, outros consideram bobagem. E no cotidiano? Qual o reflexo? Por ser uma figura pública e carismática, com mais de 29 milhões de seguidores nas redes sociais, é um influenciador de comportamentos.

O Brasil convive diariamente com a violência contra a mulher, e cinco morrem todos os dias, mesmo uma delas com medida protetiva, 10 estupros coletivos diários, um estupro a cada 6 minutos e 17 mulheres sofrem violência por dia. Quem não conhece as leis brasileiras pode pensar que não há eficácia ou preocupação, ledo engano!

A Lei Maria da Penha é considerada pela Organização das Nações Unidas, uma das três melhores do mundo em proteção às mulheres. Ademais, não foram poucas as ações do Congresso para endurecer as leis e proteger as mulheres. No entanto, a violência segue crescente. A medida mais recente, que tramita na Câmara dos Deputados, envolve a criminalização da misoginia.

Desafiador, em um país com raízes machistas e patriarcais, como será? A misoginia se refere ao desprezo, ridicularização e deboche nas questões que envolvem o feminino. Como será sua criminalização? Qual será seu efeito no Judiciário? Será a solução? Pode ser que sim, porém, é preciso o envolvimento masculino para mitigar a misoginia. Quando se é censurado por seus pares, a vergonha aparece. E a repetição a cada novo ato, por fim, o repele.

No caso do menino misógino, foram poucas as críticas masculinas, no máximo, se ativeram à necessidade de ter controle emocional para se dirigir ao árbitro. E às mulheres? Silêncio.

Enquanto homens e mulheres não lutarem conjuntamente pelo fim da misoginia, as violências seguirão sendo perpetradas dia após dia e elas continuarão expostas. Independentemente das leis existentes.

*Advogado criminalista