"Agora você vê: uma pessoa com depressão indo fazer o cabelo?"
Ouvi isso de um parente próximo, no último fim de semana, sobre outra pessoa da família. Respondi que ela não só podia como deveria. Cuidar de si, da própria aparência, pode ser um bom sinal para quem enfrenta um transtorno mental.
Não é a primeira vez, e não será a última, que escrevo sobre depressão. É um tema que insiste em voltar, não apenas pela dimensão do problema, mas pela forma como ainda lidamos com a doença.
Existe uma expectativa silenciosa de como o sofrimento deve se apresentar. Espera-se que ele seja visível, reconhecível, quase maltrapilho, quase didático. Como se a dor precisasse de comprovação para ser levada a sério.
A depressão raramente se encaixa nisso. Ela pode afundar uma pessoa aos poucos, por dentro, sem produzir uma cena compreensível para os outros. Em muitos casos, levantar da cama já é um esforço enorme. Dormir, às vezes, parece a única forma de anestesiar o que se sente.
Ainda assim, seguimos desconfiando.
Desconfiamos de quem sai de casa. De quem se arruma. De quem trabalha. De quem sorri em uma foto. Desconfiamos também de quem não consegue levantar, de quem falta, de quem apresenta um atestado, de quem precisa dizer que não deu conta.
A depressão é julgada tanto quando aparece como quando se esconde.
No Brasil, a gravidade aparece nos números e também no cotidiano. O país registra a maior prevalência da doença na América Latina. Entre os afastamentos do trabalho por transtornos mentais, as mulheres são maioria. Elas acumulam jornadas, cobranças, cuidado com os outros e, muitas vezes, pouca permissão para desabar.
Nos homens, o sofrimento costuma vir mais escondido, menos nomeado e pouco tratado. Muitos relutam em pedir ajuda, como se reconhecer a própria dor fosse uma forma de fraqueza.
O sofrimento mental não cabe em uma única explicação. Há quem trabalhe deprimido. Há quem pare de trabalhar. Há quem consiga fazer o cabelo e, no dia seguinte, não consiga sair da cama. Há quem pareça bem justamente porque aprendeu a disfarçar.
Ninguém deveria se sentir acuado por apresentar um atestado por depressão no trabalho. Nem precisar justificar um dia em que o sono foi o único alívio possível.
O país começou apenas agora a fazer uma pesquisa nacional específica sobre saúde mental, com entrevistas domiciliares para mapear transtornos, acesso aos serviços e barreiras ao cuidado. É uma iniciativa importante, mas também revela o atraso. A saúde mental nunca ocupou o lugar que merecia na agenda pública. É uma ausência histórica. O poder público costuma atuar depois, quando os números já são impossíveis de ignorar.
Por isso a pergunta ouvida no fim de semana me incomodou tanto. Ela não fala apenas de uma pessoa com depressão indo fazer o cabelo. Fala da nossa dificuldade de aceitar que, para algumas pessoas, seguir a vida já exige um esforço enorme.
Na vida, não existe competição de dor. O sofrimento do outro não precisa parecer com o nosso para ser legítimo.
*Jornalista, mestre e doutorando em
Gestão e Políticas Públicas
pela Fundação Getúlio Vargas