O ano era 1985. Fernando Henrique disputava a prefeitura de São Paulo e as pesquisas o colocavam bem à frente de Jânio Quadros. FHC liderava com tanta folga que usou sentar-se na cadeira de prefeito. Nas urnas não foi bem assim. Se venceu nas pesquisas perdeu nas urnas. Em resposta, Jânio, o segundo das pesquisas, logo ao tomar posse deu a resposta: desinfetou a cadeira. O que este episódio deixa bem claro é que nem sempre os resultados das pesquisas coincidem com os das urnas, ainda mais quando as medições são feitas em períodos distantes das eleições. Não que as pesquisas divulgadas agora estejam erradas. Elas representam um momento do eleitor que pode mudar seu voto até mesmo dentro do gabinete.
As últimas eleições municipais em Belo Horizonte confirmam isto. Quem liderou desde o início nem alcançou o segundo turno. Certamente será assim agora também. Numa eleição mais ampla, com disputas estaduais e nacional o eleitor fica ainda mais disperso e a maioria só se decide mesmo na hora de votar. Este ano temos ainda a agravante da radicalização da disputa, o que deve aumentar a indecisão do eleitorado.
O que se prevê na campanha eleitoral é uma chuva de denúncias que atingirão todos os candidatos- em especial, claro, os com maiores chances- o que só faz adiar a decisão do eleitor. Esta eleição traz um desafio para o eleitor brasileiro, normalmente "ligado" apenas nas disputas do Executivo.
Os fatos políticos têm deixado evidente a necessidade do brasileiro escolher melhor seus representantes no Legislativo. O parlamentar é essencial na democracia e deve ser o representante do povo nas decisões nacionais. Não é bem o que estamos assistindo. Nosso Parlamento está radicalizado e vota, ou trava votações, conforme o interesse de seus grupos, disfarçados em conceitos ideológicos. A queda do veto da dosimetria é um exemplo claro deste comportamento. O Congresso derrubou o veto presidencial visando beneficiar grupos e algumas lideranças específicas que colocaram em risco a democracia brasileira. E festejou como uma derrota do governo, sem considerar que, ao proteger condenados por tentativa de golpe, beneficiarão também criminosos comuns que poderão requerer redução de pena. E isto não é impor uma derrota ao governo, como festejado. É impor uma derrota ao Brasil.
O eleitor, ao fazer sua escolha, precisa pensar na responsabilidade que tem um parlamentar. Ele pode mudar o país. Daí a necessidade de que haja critérios mais sérios na definição do voto. O voto não pode ser forma de homenagear alguém. Pense nisto. Analise bem, procure conhecer melhor. Depois não adianta ficar xingando.
*Jornalista e diretor-geral da revista Viver Brasil