Por: Dora Kramer*

Congresso petista passa ao largo da realidade

O 8º Congresso Nacional do PT, reunião que o partido faz de tempos em tempos desde a sua fundação, há 46 anos, apresentou duas versões de como a legenda vê o panorama nacional a pouco menos de seis meses da eleição. Uma no texto do documento final, desta vez chamado de "manifesto", outra na explicação nas palavras do presidente Edinho Silva.

Na escrita, o cenário é tranquilo. Vai tudo correndo bem para o governo; o presidente da República não enfrenta rejeição popular nem adversários que possam ameaçar sua reeleição.

Pelo relato do manifesto, não houve aumento de fraudes e filas no INSS e não é preciso falar em segurança pública, ajuste de contas, endividamento, desequilíbrio entre os Poderes, rejeição no agro e nos evangélicos, perda de apoio entre mulheres e jovens, falta de modernização no mundo do trabalho e mais uma série de agruras da população que não enxerga um bom horizonte.

Mas, esperem. Adiante do documento aparece a solução na forma de propostas de reformas: política, eleitoral, administrativa, tecnológica, tributária, agrária, do Judiciário e, claro, da comunicação. Das mudanças sugeridas, o PT só abraçou a tributária e com impulso do Congresso. Nas outras, em seus até agora 17 anos de governo, ficou entre a indiferença, o corpo mole e a negação.

Na palavra, Edinho Silva abriu espaço à autocrítica para que não se diga que não falou de espinhos. O discurso foi em tom de perplexidade: "Como um governo tão exitoso não é reconhecido?", indagou aos companheiros, sugerindo a saída. "Precisamos conversar e mostrar o que construímos", uma vez que "o Brasil está no rumo certo".

Então fica assim combinado com os correligionários, faltando só fechar o acerto com o restante do eleitorado. O independente, que precisa ser conquistado. Para este, o congresso petista reservou o chamamento a uma "concertação social" com as forças de centro para reeleger Lula. Reedição da frente ampla, cujos integrantes de 2022, abandonados ao longo do governo, podem ter dificuldade de cair de novo na conversa.

*Jornalista e comentarista de política