Por: Victor Corrêa*

Quem me receitou? Eu mesma

Minha tia não foi ao psiquiatra. Nem pretende ir.

Ela toma zolpidem por conta própria. O remédio promete sono em poucos minutos e entrega junto um cardápio de efeitos que ela não leu na bula: alucinações, episódios de confusão mental, comportamentos automáticos.

As chamadas trends nas redes sociais se acumulam, dia sim, outro também. Gente que faz compras pela internet de madrugada, envia mensagens, come sem saber. No dia seguinte, não lembra de nada. Contadas como piada, arrancam risadas. Como se fosse o preço aceitável de uma boa noite de sono.

Não acho engraçado.

Até porque o sono chega. Os problemas ficam.

O zolpidem é um hipnótico indicado para insônia de curto prazo. Não trata ansiedade, não resolve sofrimento psíquico, não dá conta do que a vida acumula. Ainda assim, virou resposta rápida para tudo isso. Segundo dados da Anvisa, as vendas saltaram de 13,1 milhões de caixas em 2018 para mais de 23 milhões em 2020 e continuaram subindo.

Perguntei a ela quem havia prescrito. "Eu mesma", respondeu, sem hesitar. E quando sugeri um psiquiatra, veio a resposta: "Vou marcar um neurologista."

Há algo no psiquiatra que ainda assusta. Procurá-lo ainda carrega um peso que um neurologista, um cardiologista, qualquer outro especialista não carrega. Como um atestado de fraqueza. Uma admissão pública de que algo não vai bem por dentro.

O autoestigma não é imposto de fora. É incorporado. E não se limita ao remédio. Quando o peito aperta, a mente acelera, a mesma resistência aparece diante do psicólogo. Como se o silêncio fosse mais digno do que o cuidado.

E o custo desse silêncio aparece nos números. Segundo levantamento do Instituto Ipsos, brasileiros demoram em média 39 meses para procurar ajuda médica após os primeiros sintomas de depressão. Três anos e três meses convivendo com o que dói, sem nomear, sem tratar.

Nesse intervalo, o improviso ocupa espaço. O zolpidem é um exemplo. Mas há muitos outros. O problema não é só de quem evita o psiquiatra. É também de quem tenta chegar até ele. No sistema público, a espera por uma consulta psiquiátrica pode se estender por meses. Quem não pode pagar, espera. E enquanto espera, se vira.

Do outro lado, as farmácias. O zolpidem exige receita azul desde 2024. A medida veio depois que a Anvisa constatou o crescimento no consumo e o aumento de relatos de uso irregular. Na prática, a fiscalização é frouxa. O remédio continua acessível em boa parte do país sem maior dificuldade. E não é o único. Outros medicamentos controlados com exigência de retenção de receita seguem o mesmo caminho.

Minha tia ainda não marcou o psiquiatra. Disse que vai ligar para o neurologista essa semana.

*Jornalista, mestre e doutorando em Gestão e Políticas Públicas pela Fundação Getulio Vargas