Por: Paulo Cesar de Oliveira*

A radicalização é um perigo para todos os lados

Vamos trilhando caminhos perigosos. A radicalização política é um perigo para todos e ganha força a cada dia. Internamente sentimos o aumento da temperatura política na medida em que as eleições se aproximam. Uma radicalização que parte principalmente da chamada direita pois a outra ponta, a esquerda, visivelmente perdeu força e capacidade de se organizar. A direita, ao contrário, se encorpou internamente e ganhou estímulo com o apoio externo, que tem nome e sobrenome: Donald Trump. E Lula, que há pouco tempo andou pisando em cristais para evitar embates com o presidente americano começa a dar mostras de preocupações com o apoio de Trump à direita brasileira.

Depois de um período de cautela, como na época do "tarifaço", quando evitou atritos com o presidente americano, cuja vai agora tornando mais frequentes e duras suas críticas a Trump numa atitude para evitar o "assanhamento" da direita brasileira. Em encontro pela defesa da democracia na semana passada, na Espanha, o presidente foi contundente em sua fala e acusou Trump de ameaçar a paz mundial. "O Trump não tem o direito de acordar de manhã, achar que pode ameaçar um país. Não tem direito. Ele não foi eleito para isso. O mundo não lhe dá direito disso. A Constituição Americana não garante isso e muito menos a carta da ONU", disse Lula. A fala do presidente busca conter a interferência do americano em questões internas de outros países, inclusive no Brasil, com o apoio de políticos da direita que fazem questão de alardear acesso fácil a Trump.

Para muitos, a fala de Lula, em ataque frontal ao presidente americano, sinaliza que Trump começa a perder sua força política, embora lhe restem as armas. Os sinais de que isto pode mesmo estar ocorrendo ficaram evidentes neste final de semana com o surgimento de denúncias na imprensa americana sobre o enriquecimento da família Trump durante os primeiros meses do segundo mandato do presidente. O patrimônio da família praticamente dobrou no período, com ganhos inclusive por ligações com empresas fabricantes de armas, o que explicaria a ânsia bélica do presidente.

O desgaste político de Trump fica evidente ainda com os confrontos que tem buscado, como o mais recente, com o Papa Leão XIV, que evidenciam a sua necessidade de se manter no topo dos noticiários mundo afora. Radicalizar parece ser o caminho natural do presidente americano. E isto, caso se mantenha, certamente terá reflexos mundo afora. E o Brasil será uma das vítimas deste processo. Entre nós, Flávio Bolsonaro, que tem liderado pesquisas, está usando a estratégia de se mostrar menos radical, embora procure se mostrar com acesso fácil a Trump.

Os demais candidatos da direita não escondem o discurso radical semelhante ao do presidente americano. A "esquerda" começa agora, com Lula enfrentando diretamente Trump, a buscar um caminho. Mas as eleições estão chegando.

*Jornalista e diretor-geral da revista Viver Brasil