Por: Dr. Aloisio Barbosa Filho

Saúde cardiovascular e câncer: como hábitos ao longo da vida influenciam a sobrevivência

A relação entre a saúde do coração e o câncer tem ganhado cada vez mais destaque na medicina. Estudos recentes mostram que manter hábitos saudáveis ao longo da vida não apenas ajuda a prevenir doenças cardiovasculares, mas também pode impactar diretamente as chances de sobrevivência mesmo após um diagnóstico oncológico.

Uma pesquisa publicada no European Heart Journal acompanhou mais de 24 mil pessoas por cerca de 15 anos e revelou um dado significativo: indivíduos com melhor saúde cardiovascular apresentaram um risco até 38% menor de morte por qualquer causa, inclusive entre aqueles que já haviam enfrentado o câncer. O estudo reforça a importância de enxergar o organismo de forma integrada, já que doenças cardiovasculares e câncer compartilham fatores de risco e mecanismos biológicos.

Para avaliar a saúde cardiovascular, os pesquisadores utilizaram o Life's Simple 7, índice criado pela American Heart Association, que considera sete pilares fundamentais: não fumar, praticar atividade física, manter uma alimentação equilibrada, controlar o peso corporal, a pressão arterial, o colesterol e a glicose. Cada um desses fatores contribui para o bom funcionamento do organismo, e o estudo mostrou que até mesmo pequenas melhorias nessa pontuação já estão associadas à redução do risco de morte.

Outro aspecto relevante é que os benefícios desses hábitos não se limitam à prevenção. Mesmo após o diagnóstico de câncer, manter uma boa saúde cardiovascular pode aumentar as chances de sobrevivência. Segundo o oncologista Stephen Stefani, esse cuidado atua tanto na redução do risco ao longo da vida quanto na capacidade do organismo de enfrentar a doença e os tratamentos, contribuindo para melhores desfechos clínicos.

Do ponto de vista biológico, essa conexão está relacionada ao chamado terreno compartilhado. A inflamação crônica, por exemplo, é um processo contínuo que pode danificar os vasos sanguíneos e, ao mesmo tempo, favorecer o desenvolvimento e a progressão de tumores. Além disso, fatores como frequência cardíaca, marcadores inflamatórios e níveis de vitamina D influenciam esse equilíbrio, embora não atuem de forma isolada, sendo parte de um contexto mais amplo de saúde.

A alimentação também exerce papel fundamental. Padrões como a dieta mediterrânea, rica em frutas, vegetais, peixes e azeite, estão associados à redução do risco de doenças cardiovasculares, câncer e outras condições crônicas. Isso evidencia que o benefício não vem de um único fator, mas de um conjunto de escolhas saudáveis mantidas ao longo do tempo.

Essas evidências fortalecem a cardio-oncologia, área que integra o cuidado do coração e do câncer desde a prevenção até o acompanhamento de pacientes já diagnosticados. Mais do que tratar doenças de forma isolada, a proposta é atuar de maneira preventiva e contínua, considerando o organismo como um sistema interligado.

Diante disso, fica claro que investir em hábitos saudáveis é essencial para promover qualidade de vida e aumentar a longevidade. Manter uma rotina ativa, alimentar-se bem, evitar o tabagismo, controlar fatores de risco e realizar acompanhamento médico regular são atitudes que fazem diferença em todas as fases da vida. A saúde é resultado de escolhas diárias, e cuidar do coração pode ser também uma forma de aumentar as chances de superar desafios como o câncer, com mais equilíbrio e melhores perspectivas de vida.

Dr. Aloisio Barbosa Filho é cardiologista e vereador de Petrópolis