O conto (ou novela por sua estrutura) "O alienista" (1882), de Machado de Assis, é genial. Traz uma crítica social muito irônica e bem ao seu estilo. A obra narra a história do Dr. Bacamarte, um médico e alienista (a designação de psiquiatra na época), criador da Casa Verde, um manicômio usado para internar os 'alienados' e para realizar estudos inéditos sobre a mente humana.
No Brasil, as décadas de 1870/ 1880 presenciaram o súbito e considerável aumento de casas de saúde e hospícios. O Hospício Pedro II, no Rio de Janeiro, era a principal referência. Esses manicômios eram, muitas vezes, usados para realizar uma 'limpeza social', ou seja, local para isolar ou punir pessoas indesejadas, questionadoras, não adaptadas aos padrões comportamentais impostos, ou consideradas 'inadequadas' para o convívio social, além daqueles com reais transtornos mentais.
Depois de conquistar respeito e prestígio na carreira de médico na Europa e Brasil, o Dr. Bacamarte decidiu retornar ao país, à vila de Itaguaí. Casou-se com a já viúva D. Evarista. Ele era muito estudioso, dedicou-se à psiquiatria e usou seu manicômio, a Casa Verde, para abrigar todos os loucos da cidade e região. No início os internos eram casos de loucura. Em certo momento, Dr. Bacamarte passou a enxergar loucura em todos e a internar pessoas que lhe causavam espanto. O primeiro foi o Costa, homem honesto que faliu emprestando dinheiro aos outros, sem conseguir cobrar de seus devedores. A partir daí diversas outras personagens foram internadas pelo alienista.
As internações exageradas deixaram a população alarmada. Com o tempo, o clima ficou muito tenso e o barbeiro, com interesses políticos, resolveu armar um protesto. No entanto, o alienista não recebia mais dinheiro pelos internos e o povo percebeu que suas ações não eram movidas por interesses econômicos mesquinhos, esvaziando o movimento do barbeiro. Como ele não desistiu, criou a Revolta dos Canjicas (o barbeiro era conhecido por "Canjica"). A revolta ora esquentava, ora esfriava; juntava adesões e desistências. As internações continuaram de forma acelerada e até D. Evarista foi internada após passar uma noite sem dormir por não conseguir decidir qual vestido usaria em um baile.
Com 75% da população internada na Casa Verde, o alienista resolveu libertar todos os internos e refazer sua teoria: se a maioria apresentava desvios de personalidade sem um padrão, então louco era quem mantinha regularidade nas ações e caráter. Essa teoria foi alterada mais vezes. As internações e liberações ocorriam conforme as novas teorias. Algumas pessoas, porém, foram consideradas curadas ao apresentarem algum desvio de caráter. Por fim, o alienista concluiu ser ele o único anormal e decidiu trancar-se sozinho na Casa Verde. Faleceu poucos meses depois.
A caricatura bem humorada daqueles cientistas que pensam saber de tudo mais do os outros, os donos da verdade, conduz-nos à reflexão sobre fatos atuais. É ler para crer e rir!
Rosina Bezerra de Mello é doutora em estudos literários e professora