Vivenciamos um período de reflexão profunda sobre o "destino" da humanidade em tempos de guerras, de armas nucleares e de ideologias que desumanizam a pessoa e escravizam o coletivo. Apresento para vocês uma obra atemporal do filósofo e teólogo Aurélio Agostinho, Bispo de Hipona (354-430d.C.): "A Cidade de Deus" (De Civitate Dei) escrita durante os anos de 413 e 426 d.C. Nela, o autor procurou narrar a história do mundo, retratando o apogeu das civilizações e a razão de suas quedas, separando a noção de cidade terrena (dos homens) e cidade espiritual (celeste, de Deus), motivado pela tomada de Roma, em 410d.C., pelos visigodos e a consequente queda do Império Romano.
Roma foi fundada em 753a.C., segundo o historiador Marco Terêncio Varrão, a partir da união de pequenas aldeias da região do Lácio; passou por diferentes períodos sempre evoluindo como civilização: Monarquia com reis etruscos e latinos (753 - 509 a.C.); República liderada pelo Senado e Cônsules (509-27a.C.); e Império (27a.C-476d.C.) iniciado por Otávio Augusto e atingindo o auge territorial e a Pax Romana. São mais de 8 séculos de história. E o que Roma tem a ver com a obra em questão? Tudo.
A partir da invasão e queda de Roma, o império foi gradativamente destruído por diferentes povos. Alguns romanos pagãos atribuíram culpa aos cristãos, obrigando Agostinho a refutar seus argumentos. A obra é composta por 22 livros. Os 5 primeiros refutam aqueles que culpam os cristãos e a proibição ao culto politeísta; os 5 seguintes apresentam as calamidades históricas recorrentes de tempos em tempos; nos 12 livros finais, são apresentadas as características das cidades terrenas, voltadas para o materialismo, acúmulo de riqueza, prazeres efêmeros, ausência de critérios morais (virtudes) que diferenciem o bem comum do bem unicamente individual, confusão entre liberdade e libertinagem, apontando as consequências inevitáveis dos excessos caóticos e da degradação social, com exemplos históricos de catástrofes e de quedas civilizacionais.
A cidade de Deus é o oposto da cidade dos homens, pois, nela, seus habitantes buscam a prática das virtudes morais a partir da dominação dos instintos animais próprios da natureza humana. Os valores e os bens são duradouros, espirituais e conduzem ao progresso. Nela prevalece o respeito ao bem comum, às regras sociais e legais, à busca pela verdade e pela liberdade responsável. A felicidade e a paz podem ser alcançadas. Podemos dizer que a obra retrata o conflito entre os materialistas, adoradores dos bens terrenos e os adoradores dos bens espirituais.
Em 1681, Jacques-Bénigne Bossuet publicou "Discurso sobre a História Universal", percebido como uma continuação de "A Cidade de Deus", pois o autor atualiza a história universal, de acordo com a tese de Agostinho, focando o conflito entre o Bem e o Mal, entre os Homens crentes em Deus e aqueles que O negam.
A retórica agostiniana é riquíssima, atual e profunda, vale a leitura.
Rosina Bezerra de Mello é doutora em estudos literários e professora