A Paixão Segundo G.H. é um romance de Clarice Lispector publicado em 1964. Nele a autora apresenta uma reflexão filosófica profunda sobre a humanidade e sua essência, percorrendo o caminho inverso ao de Jesus Cristo em sua Paixão: morrer por amor e para a redenção do Gênero Humano (G.H.).
O calvário de GH tem início após a demissão da empregada e por acreditar que deveria limpar o quarto da funcionária. A madame, ao abrir a porta do pequeno cômodo, depara-se com um ambiente perfeitamente organizado e limpo. A visão iluminada e inesperada choca GH. O susto põe a protagonista diante de sua pequenez e preconceito. Tal sensação é agravada a cada passo para dentro do quarto, provocando, metaforicamente, passos para o labirinto dentro de si.
A narrativa desenvolve-se no fluxo da consciência da personagem. No dia seguinte, ela tenta desesperadamente escrever o evento para contar a alguém a vivência do dia anterior, sem saber a quem direcionar a carta. A obra retrata o caminho simbólico de GH em busca de autoconhecimento, do sentido de vida, pois não se identifica com sua imagem no espelho e nem no próprio retrato. Mergulhada no labirinto de sua existência, descobre ser apenas o que esperam dela. Quem ela é realmente?
Cristo esvaziou-se da natureza divina e tornou-se humano para servir de modelo e ensinar aos homens como se identificarem com o Criador; GH renunciou sua humanidade para encontrar, compreender a essência original de humanidade no Criador dentro de si, preenchendo o vazio existencial. É o sacrifício às avessas.
O livro é uma espécie de romance-enigma em que a linguagem personifica o Verbo, o Caminho pelo qual o mundo é criado. As palavras tanto afastam o ser de sua essência (não expressam sua totalidade), quanto constituem a chave para alcança-la. A linguagem é o único meio possível de tocar o intocável, de dizer o indizível e de despertar o melhor e o pior de nossa condição humana primordial: ser e realizar tudo para o qual fomos criados.
GH representa todos os seres. Na retrospectiva de vida da mulher ao encontro de si está a mística, a abertura à busca espiritual de seu ser. Ela relata a descoberta do cotidiano, do valor das pequenas coisas, da verdade, do encontro com o outro e, ao mesmo tempo, questiona o que é o ser humano. GH revê suas faltas e falhas; observa suas carências; e, entende suas frustrações como consequências de suas escolhas desordenadas. O clímax da descoberta é a cena icônica do romance. A barata expele a secreção branca, sua última essência. GH, então, a prova. É a renúncia da própria humanidade. Ela desmaia em seguida. É a morte simbólica. Entrega-se ao silêncio. Instantes depois volta a si. Está viva, ressurreta!
Todas as metáforas utilizadas por Clarice Lispector permitem diferentes interpretações, dependendo do leitor para definição do seu significado. Todavia, é preciso lembrar que, também na obra clariceana, a experiência espiritual do ser humano passa pelo corpo.
Rosina Bezerra de Mello é doutora em estudos literários e professora