Por: Victor Corrêa*

Quando a idade vira exclusão

Fátima trabalha desde os 18 anos. Hoje, tem 58 recém-completados. Em uma ironia nada feliz, ganhou de presente uma demissão.

Estava na mesma empresa havia cerca de dez anos. Cumpria bem suas funções, era comprometida. Ainda assim, foi demitida.

O etarismo, a discriminação baseada na idade, falou alto enquanto ela assinava os papéis de rescisão. Fátima tem contatos, tem experiência, tem história. Mas, desta vez, nada parece suficiente.

Ao longo da vida, precisou se adaptar muitas vezes, principalmente à tecnologia. Seguindo o conselho de uma amiga, criou um perfil no LinkedIn, rede social voltada a conexões profissionais e busca de emprego.

Não foi simples. Fátima diz que não se reconhece na cultura da performance das redes profissionais.

Hoje, para encontrar um trabalho, não basta mais ter um bom currículo ou um perfil completo. É preciso ser encontrado. Nesse ambiente, quem faz esse encontro não são pessoas, mas sistemas.

O LinkedIn funciona a partir de algoritmos que identificam palavras-chave, frequência de atividade e nível de engajamento. Não é apenas a trajetória profissional que define quem será visto, mas a forma como ela é apresentada dentro da plataforma.

Uma pesquisa recente mostra que cerca de 70% das empresas contrataram um número muito baixo de profissionais com mais de 50 anos; muitas vezes nenhum.

Não é exceção. Há um padrão.

Diante desse cenário, muitos profissionais passam a recorrer às redes sociais para não desaparecer. O que poderia funcionar como ponte se transforma em

mais uma fonte de desgaste: a necessidade de se manter relevante no mercado de trabalho.

Nem todo mundo quer transformar a própria trajetória em vitrine para continuar trabalhando.

Fátima observa aquilo tudo e se pergunta como essas pessoas conseguem ter sempre um relato de aprendizado, sucesso ou superação para contar.

A história de Fátima não é exceção. Há uma geração inteira com carreira longa, formação sólida e anos de experiência que, ainda assim, encontra dificuldades para se manter no mercado.

Não falta experiência. Falta espaço para quem tem experiência.

Aos poucos, o que era estabilidade dá lugar ao improviso. Um trabalho aqui, outro ali. Nada contínuo. Nada seguro.

Nesse contexto, a experiência, que deveria abrir portas, muitas vezes passa a fechá-las. O rótulo de "qualificado demais" aparece como justificativa para a exclusão.

Fátima passou a lidar com episódios de ansiedade diante da instabilidade e das sucessivas tentativas frustradas de se recolocar. Com a perda da renda, precisou cancelar o plano de saúde e passou a depender do SUS, enfrentando longas filas.

Ao mesmo tempo, se deparava, no LinkedIn, com uma vitrine constante de histórias de sucesso que pareciam distantes da sua realidade. A comparação, inevitável, pesava.

O Brasil está envelhecendo, como mostram os dados do Censo do IBGE.

E quem hoje tem 30, 40 anos já sabe: vai trabalhar entre os 60 e 65 anos, após a reforma da Previdência de 2019. O problema é que o mercado não parece disposto a manter essas pessoas até lá.

Esse descompasso não é apenas individual. É estrutural e exige políticas públicas que revisem o recrutamento de profissionais seniores e ampliem oportunidades ao longo da vida profissional.

Ignorar esse movimento é empurrar para fora quem ainda está no meio do caminho.

*Jornalista, mestre e doutorando

em Políticas Públicas pela

Fundação Getulio Vargas