O imaginário coletivo associa o infarto a uma dor intensa no peito, irradiando para o braço esquerdo, acompanhada de sudorese e sensação de morte iminente. Esse quadro clássico, embora frequente, não representa a totalidade dos eventos isquêmicos. Uma parcela relevante dos infartos ocorre de forma silenciosa ou com sintomas atípicos, o que dificulta o reconhecimento precoce e compromete o prognóstico.
O chamado infarto silencioso é aquele que não apresenta os sinais clássicos ou se manifesta de maneira discreta. Em alguns casos, o paciente relata apenas fadiga incomum, desconforto leve no tórax, dor epigástrica, falta de ar ou mal-estar inespecífico. Em outros, não há qualquer percepção subjetiva do evento, sendo o diagnóstico feito apenas posteriormente, por meio de exames como o eletrocardiograma ou testes de imagem.
Do ponto de vista fisiopatológico, o mecanismo é o mesmo: ocorre a obstrução de uma artéria coronária, levando à redução ou interrupção do fluxo sanguíneo para determinada região do miocárdio. A diferença está na forma como o organismo percebe, ou não, esse processo. Pacientes com diabetes, por exemplo, podem apresentar neuropatia autonômica, o que reduz a percepção da dor. Idosos e mulheres também estão entre os grupos com maior probabilidade de apresentações atípicas.
A ausência de sintomas típicos não significa menor gravidade. Pelo contrário, o infarto silencioso tende a ser diagnosticado tardiamente, quando já houve dano miocárdico estabelecido. Isso aumenta o risco de complicações como insuficiência cardíaca, arritmias e novos eventos isquêmicos. Além disso, a falta de reconhecimento impede a adoção imediata de medidas terapêuticas que poderiam limitar a extensão da lesão.
O desafio clínico está em manter um alto grau de suspeição. Sintomas inespecíficos em pacientes com fatores de risco (hipertensão, diabetes, dislipidemia, tabagismo) devem ser valorizados. O eletrocardiograma de repouso, frequentemente subestimado, pode revelar sinais de infarto prévio não diagnosticado. Exames complementares, quando bem indicados, ajudam a esclarecer casos duvidosos.
A principal implicação prática é clara: depender exclusivamente da dor típica como marcador de infarto é um erro. A medicina precisa reconhecer padrões menos evidentes, e o paciente precisa compreender que alterações aparentemente banais podem ter significado cardiovascular.
Informação qualificada e vigilância clínica são determinantes para reduzir o impacto desses eventos. O infarto silencioso não é menos perigoso por ser discreto. Ele apenas passa despercebido, até que suas consequências se tornem inevitáveis.
*Dr. Aloisio Barbosa Filho é cardiologista e
secretário de Saúde de Petrópolis