Por: PEDRO SOBREIRO

Messi, Trump e o projeto de consolidação do Inter Miami no futebol mundial

Trump recebeu uma camisa do Inter Miami e uma bola autografada. | Foto: Casa Branca

Na noite da última quarta-feira (4), o Inter Miami de Lionel Messi e Luís Suárez foi recebido pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na Casa Branca, em Washington. O encontro entre o camisa 10 do clube e da seleção argentina aconteceu por conta de um compromisso simbólico da política americana, em que o presidente recebe e parabeniza os campeões dos torneios esportivos do país. Neste caso, o Inter Miami é o atual campeão da MLS, título conquistado após vencer o Vancouver Whitecaps em dezembro de 2025.

O comparecimento ao encontro, porém, não é obrigatório. E essa aparição de Messi, um jogador que passou a carreira inteira sem expressar comentários políticos, vem causando grande repercussão no mundo da bola, principalmente pelo momento em que aconteceu. No último sábado (28), Estados Unidos e Israel se uniram para atacar o Irã, em ação que matou o aiatolá Ali Khamenei, além de ter bombardeado uma escola para meninas e ter deixado mais de 1.200 mortos até o momento.

A invasão do Irã não é um consenso nem mesmo dentre os aliados políticos de Donald Trump. Internamente, o presidente dos Estados Unidos vem enfrentando uma drástica queda de popularidade, que foi intensificada após as polêmicas envolvendo assassinatos de americanos pelo ICE, o Serviço de Imigração e Alfândega que está sendo usado nas prisões e deportações no país.

Fato é que o timing político desse encontro foi perfeito para Donald Trump e completamente ingrato para Lionel Messi. É justo, digno e democrático que Messi tenha suas preferências políticas - algo que ele mais uma vez não expressou, diga-se de passagem -, mas a partir do momento em que o argentino comparece, brinca e tira fotos com um presidente que deu início a uma guerra que fez mais de mil mortos em seis dias, ele tem de aceitar que sua imagem será atrelada a esse tipo de caso. 

Diplomacia comercial

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Fintech brasileira vai dar nome ao estádio do time de Messi | Foto: Divulgação/ Nubank

O comparecimento à Casa Branca é algo que dialoga com a estratégia do Inter Miami de internacionalização da marca como uma equipe que abraça e aceita todos os torcedores. E parte dessa estratégia está na inauguração de seu novo estádio, o Nu Stadium, que será aberto em 4 de abril deste ano e fica localizado no Miami Freedom Park, um complexo esportivo que reúne estádio, hotéis, lojas e tem a pretensão de ser o grande centro esportivo de Miami.

Para o clube, o encontro é uma ação diplomática que tem forte potencial comercial. Ter a imagem de sua equipe associada a Trump, magnata da hotelaria e dos cassinos dos EUA, é um gesto que traz para perto parcerias comerciais do ramo nos Estados Unidos. Para Jorge Mas, executivo proprietário do clube, é uma forma de associar o Miami Freedom Park a esse ramo hoteleiro.

Mais do que isso, Trump é amigo pessoal de Gianni Infantino, presidente da FIFA, no ano em que o país sediará a Copa do Mundo. Evento que consagrou Lionel Messi no planeta inteiro, após a conquista da taça em 2022. Infantino, inclusive, tem feito "vista grossa" para ações de Trump que claramente violam o regulamento da FIFA, o que se mostra mais uma potencial parceria positiva para quem visa consolidar um projeto esportivo ao redor do mundo.

“O Inter Miami foi construído para estabelecer novos padrões e redefinir o que é possível no futebol. É por isso que buscamos a excelência em campo contratando os melhores jogadores do mundo e, tão importante quanto, temos esse mesmo padrão na escolha dos parceiros que ajudam a dar vida à nossa visão”, disse Jorge Mas no anúncio da Nubank como parceira esportiva e dona dos naming rights do novo estádio.

O dirigente definiu a visão comercial do clube como "mentalidade disruptiva e ambição global". Segundo ele, o conceito do Miami Freedom Park é criar um "lugar especial que eles [torcedores] podem chamar de lar, onde podem se sentir conectados, inspirados e parte de algo verdadeiramente extraordinário".

Rosto da FIFA

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Na honraria, Donald Trump disse que Messi era melhor que Pelé, e disse que o uruguaio Luís Suárez era brasileiro. | Foto: Casa Branca

Com a morte de Pelé em dezembro de 2022, 11 dias após Messi conquistar a tão sonhada Copa do Mundo e "encerrar" o debate sobre o melhor jogador deste século, a FIFA vem preparando o ídolo argentino para ser o novo rosto do futebol mundial no século XXI.

Assim como Pelé, Messi é considerado um representante perfeito dos valores que a FIFA e a Conmebol buscam transmitir para o mundo. Ambos são vistos como atletas exemplares, carismáticos e com vidas públicas irretocáveis. São pessoas de bem, - até então - pouco envolvidas com política, cujas aparições são dadas apenas em situações relacionadas ao mundo da bola.

Ao contrário de Maradona, por exemplo, Messi jamais se envolveu em escândalos de doping, uso de drogas ou acusações de agressões e violência.

Pai de família, casado com Antonella - sua amiga de infância -, confiante, mas não arrogante e sempre com uma imagem serena e divertida, Messi é o exemplo perfeito do que a FIFA busca associar aos seus valores.

Por anos, houve o debate entre Messi ou Cristiano Ronaldo. Qual seria o "rosto" do futebol atual. Porém, a conquista da Copa do Mundo pôs fim a essa discussão, que sempre pendeu mais a Messi do que ao "Robozão".

O craque português sempre foi exemplar dentro de campo, com muita dedicação esportiva e um compromisso físico inigualável na história do esporte. Porém, seu extracampo sempre foi mais conturbado. A começar pelo próprio primogênito, Cristiano Ronaldo Júnior, cuja mãe é desconhecida. De acordo com o jornal britânico Daily Mail, a família do jogador teria pago uma quantia milionária para a mulher ceder a guarda total do menino a Cristiano Ronaldo, assinando um acordo oficial de preservação de identidade.

Além disso, sua imagem ficou atrelada a uma acusação de estupro feita pela modelo Kathryn Mayorga, em Las Vegas, em 2009. Cristiano Ronaldo sempre negou as acusações e chegou a um acordo com a mulher, em que pagou 375 mil dólares para pôr fim ao caso. Em 2022, o caso foi oficialmente arquivado pela justiça americana, alegando que a defesa de Kathryn teria agido com má conduta ao desrespeitar o processo de litígio em 2018.

Mesmo com o caso encerrado, foram décadas de ligação do nome do atleta a essa acusação, indo contra os valores da entidade.

Para a Conmebol, ter Messi como seu "rosto oficial" é ainda mais lógico. Após 80 anos de Pelé representando o Brasil e o futebol sul-americano pelo globo, Messi ter conquistado a Copa do Mundo foi um "presente dos céus" para a entidade máxima do futebol do continente, que poderá explorar a imagem do sul-americano como sinônimo de bom futebol por mais um século.

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FIFA vem fazendo "vista grossa" para conflitos geopolíticos | Foto: Reuters/ Folhapress

No caso da FIFA, mais especificamente de Gianni Infantino, as imagens de Messi ao lado de Donald Trump são exatamente o que ele precisava neste momento conturbado. Diante da guerra iniciada por EUA e Israel no Oriente Médio, que vem mexendo com a geopolítica mundial e aumentando a pressão em cima do dirigente quanto a realização da Copa do Mundo 2026 nos EUA, ter o presidente do país brincando junto ao jogador escolhido para ser o "rosto" da entidade máxima do futebol é um leve respiro para Infantino.

Ao aparecer ao lado de Trump, Messi passa confiança na realização do Mundial nos Estados Unidos em meio a uma onda de manifestações pedindo o adiamento ou modificação de sede de uma das Copas dos Mundo mais caóticas da história.