Por: Victor Corrêa*

O direito de sofrer também é desigual

"Dinheiro não traz felicidade", diz o senso comum. Nas redes, a réplica costuma ser automática: "Então me dê o seu e seja feliz".

A frase parece encerrar o debate. Mas quando o assunto é sofrimento psíquico, a desigualdade não desaparece — ela determina quem pode parar e quem precisa continuar.

"Não são as mesmas 24 horas para todos." A expressão ecoa quando se compara a vida de quem depende de transporte público à de quem trabalha perto de casa, ou quando se discute a viabilidade da escala 6 por 1. O tempo, afinal, não pesa da mesma maneira para todos.

Para muitos, o dia começa antes do sol nascer. Ônibus lotado, trânsito que não anda, horas de deslocamento. Quando se chega ao trabalho, parte da energia já ficou pelo caminho. Ao final do expediente, o trajeto se repete.

Se o tempo é desigual, o desgaste também é.

Problemas financeiros ocupam espaço constante na mente. Para motoristas de aplicativo e entregadores de plataformas digitais, a conta não fecha quando o turno termina. Ela continua rodando internamente: "Mais 10 corridas e pago o aluguel." Assim, quase sem perceber, trabalha-se 12, 14, 16 horas por dia. O corpo resiste. A mente acumula.

O Brasil tem hoje dezenas de milhões de trabalhadores por conta própria ou na informalidade. Muitos afirmam preferir a autonomia, a flexibilidade de horários, a possibilidade de organizar o próprio tempo. A escolha é legítima.

O problema surge quando essa autonomia convive com ausência de proteção. Sem férias remuneradas, licença médica, seguro-desemprego ou garantia mínima de renda, qualquer oscilação econômica deixa de ser apenas financeira — torna-se emocional. A liberdade, quando desacompanhada de rede de amparo, pode se transformar em insegurança permanente.

Não é apenas uma percepção. Um relatório recente da ONU sobre pobreza e saúde mental aponta que pessoas em situação de vulnerabilidade econômica têm até três vezes mais chances de desenvolver transtornos mentais. Entre adultos desempregados, a prevalência de condições psíquicas comuns chega a 40% — mais que o dobro da observada entre os empregados.

Em um país como o Brasil, onde a distância entre ricos e pobres permanece ampla e a mobilidade social ainda é limitada, períodos de inflação alta, desemprego e renda instável não afetam apenas o orçamento doméstico. Produzem insegurança contínua. E insegurança prolongada afeta diretamente o equilíbrio emocional.

O modo como a sociedade interpreta o sofrimento muda conforme a renda.

Quando alguém com estabilidade financeira relata exaustão, fala-se em pressão ou excesso de responsabilidade. Quando o trabalhador precarizado demonstra irritação constante, insônia ou esgotamento, muitas vezes ouve que precisa "aguentar firme". Ou que deveria rezar mais. Ou que falta força de vontade.

Sofrimento não é privilégio de classe. O que muda é quem pode parar para cuidar de si — e quem não pode.

Não há competição de dor. O que existe é desigualdade nas condições de enfrentá-la.

*Jornalista, mestre e doutorando pela Fundação Getulio Vargas