O caso da polilaminina, associado ao trabalho da doutora Tatiana Coelho de Sampaio, virou por alguns dias um episódio de televisão e de redes sociais: recortes, indignação instantânea, versões que se atropelam e a sensação de que tudo começa e termina na mesma semana. É justamente aí que mora o problema. O fato não é um "caso isolado" para consumo rápido, nem um roteiro que se encerra em si mesmo; é um sintoma, como poucos, da postura do Brasil diante das patentes, do conhecimento e da inteligência artificial.
Na nova economia, patente deixou de ser detalhe jurídico e passou a ser instrumento de soberania econômica. Ela define quem licencia e quem paga, quem atrai capital e quem depende, quem negocia parcerias em posição de força e quem entra tarde nas cadeias globais. Por isso o mundo mede poder tecnológico por patentes — e pelo dinheiro que elas geram. Em 2024, os depósitos internacionais via PCT foram liderados por China (70.160), Estados Unidos (54.087), Japão (48.397), Coreia do Sul (23.851) e Alemanha (16.721). O Brasil registrou 637 pedidos, acima de 2023 (514): um avanço real, mas ainda modesto diante de quem disputa o comando da economia digital. E, no caso da doutora Tatiana, a proteção internacional de um ativo estratégico não se sustentou, revelando como o país ainda trata esse degrau como improviso, não como política.
Há uma segunda medida, ainda mais reveladora, porque mostra musculatura de longo prazo: os pedidos "por origem", isto é, o quanto residentes de cada país depositam no mundo, dentro e fora de casa. Em 2024, a China aparece com cerca de 1,8 milhão de pedidos; os EUA, 501.831; o Japão, 419.132; a Coreia, 295.722; a Alemanha, 133.485. Esses números não são fetiche estatístico. Eles traduzem uma escolha de Estado: tratar propriedade intelectual como infraestrutura de poder, tão estratégica quanto energia, portos e defesa, e colocá-la no centro da diplomacia econômica, das compras públicas tecnológicas e do financiamento do risco.
O retrato doméstico reforça a tese. Pelas estatísticas do INPI compiladas no Anuário do IBGE, o total de pedidos de patentes depositados no Brasil oscilou pouco: 27.551 em 2018; 26.921 em 2021; 27.139 em 2022; 27.918 em 2023; 27.701 em 2024 (preliminar). Sete anos praticamente no mesmo patamar, enquanto a fronteira tecnológica muda em meses. É aqui que a polilaminina deixa de ser apenas um "caso" e vira sintoma: chegamos à pesquisa, mas tropeçamos no degrau que internacionaliza o ativo e o transforma em mercado.
Esse degrau custa e exige continuidade. Patente global pede estratégia, tradução técnica, escritórios especializados, taxas e manutenção por anos — além da decisão de priorizar, porque não se patenteia tudo. Nos países líderes, isso não é aventura individual do pesquisador nem loteria institucional; faz parte de um motor público-privado que transforma ciência em indústria, com fundos permanentes, escritórios de transferência robustos, programas de ligação com empresas e capital disposto a errar rápido para acertar grande. No Brasil, a proteção internacional frequentemente depende de fôlego episódico: um orçamento que varia, uma universidade que não tem caixa, uma empresa que adia, um laboratório que se perde na burocracia e, no fim, o prazo passa. A patente "escorre" — e com ela escorre uma parte do futuro. E o mais irônico é que um mecanismo nacional bem desenhado para financiar PCT, traduções e taxas custaria uma fração do que o país perde, todos os anos, em desperdícios e ineficiências.
Iniciativas existiram, e seria injusto negar. No governo FHC, Fundos Setoriais e FNDCT buscaram previsibilidade; no governo Temer, o Marco Legal de CT&I tentou aproximar pesquisa e empresa; o governo atual publicou estratégia e plano para IA e detalhou o PBIA (R$ 23 bi) e o REData, conectando IA à indústria e a data centers. E há polos reais, Florianópolis, o entorno da USP, Rio de Janeiro, o Porto Digital de Recife, ainda como arquipélago. O problema é que seguimos com ilhas, não com sistema: falta coordenação nacional, metas de conversão de pesquisa em patentes internacionais e um mecanismo simples, profissional e rápido para levar descobertas ao exterior, com governança técnica e foco em licenciamento.
A era da IA torna essa ausência mais perigosa. A velocidade de descoberta aumenta, a disputa por propriedade intelectual se intensifica e a saúde será empurrada para ciclos de pesquisa mais rápidos, guiados por dados e automação. Quem não protege, não negocia; quem não negocia, não escala; quem não escala, paga para usar o que poderia vender, e ainda chama isso de "modernização".
A resposta, portanto, não pode ser novela, nem "drama na TV". O que está em jogo é contextualização e, a partir dela, ação: um instrumento nacional de "patente global", PCT, traduções, taxas e estratégia, com continuidade e cobrança pública; integração dos polos em rede, com programas comuns e metas; e uma política que trate propriedade intelectual como infraestrutura econômica. Sem contextualização, debate e providências, a notícia apenas sacia o apetite do curto prazo. Sem contexto, ela não mede o tamanho do problema, e, sem consequência, não vira aprendizado urgente. O drama da Dra. Tatiana é o drama do país.
*Vinícius Lummertz é Senior Fellow do Milken Institute, foi ministro do Turismo e secretário de Turismo e Viagens de São Paulo.