Por: Dr. Aloisio Barbosa Filho

Impacto da poluição do ar na saúde cardiovascular urbana

Quando se fala em poluição do ar, a associação imediata costuma ser com doenças respiratórias. No entanto, a ciência tem demonstrado de forma consistente que os efeitos dos poluentes atmosféricos vão além dos pulmões e atingem diretamente o sistema cardiovascular. Nas grandes e médias cidades, a qualidade do ar tornou-se um fator silencioso, porém relevante, no aumento de hospitalizações por doenças cardíacas.

Os principais poluentes urbanos, como material particulado fino, dióxido de nitrogênio e ozônio, são produzidos principalmente pela queima de combustíveis fósseis, emissões veiculares e atividades industriais. Essas partículas microscópicas, ao serem inaladas, ultrapassam as barreiras pulmonares e desencadeiam processos inflamatórios sistêmicos. O resultado é um aumento da instabilidade das placas de aterosclerose, maior propensão à formação de coágulos e elevação da pressão arterial.

Diversos estudos epidemiológicos mostram que picos de poluição estão associados ao crescimento imediato das internações por infarto agudo do miocárdio, insuficiência cardíaca e arritmias. Em dias de maior concentração de material particulado, observa-se aumento mensurável nas emergências cardiovasculares, especialmente entre idosos, hipertensos, diabéticos e portadores de doença arterial prévia.

O impacto não é apenas agudo. A exposição crônica à poluição acelera o processo de aterosclerose e contribui para o desenvolvimento de hipertensão e disfunção endotelial. Em outras palavras, o ar poluído não apenas precipita eventos cardíacos, mas também participa da sua gênese ao longo do tempo.

Nas cidades brasileiras, onde a frota de veículos cresce continuamente e o planejamento urbano nem sempre acompanha essa expansão, o desafio é evidente. A saúde cardiovascular da população urbana está ligada à qualidade do ambiente em que vive. A prevenção, nesse contexto, não depende apenas de hábitos individuais, como dieta e atividade física, mas também de políticas públicas voltadas à mobilidade sustentável, controle de emissões e monitoramento da qualidade do ar.

Como cardiologista, é impossível ignorar esse fator de risco ambiental. A poluição atmosférica deve ser compreendida como um determinante relevante das doenças cardiovasculares modernas. Proteger o coração da população urbana passa, necessariamente, por melhorar o ar que respiramos.

Dr. Aloisio Barbosa Filho é cardiologista e secretário de saúde de Petrópolis