O pioneirismo feminino no campo literário é muito expressivo e significativo. No artigo anterior, falei sobre autoras brasileiras e comecei a apresentar as escritoras internacionais. Entretanto, quero falar sobre algumas romancistas dos séculos XVIII e XIX que precisaram iniciar suas carreiras com pseudônimos masculinos como condição para publicarem suas obras.
Entre elas estão as irmãs Charlotte, Emily e Anne Brontë com os nomes Currer, Ellis e Acton Bell; a Mary Ann Evans foi George Eliot para garantir que seus romances intelectuais fossem respeitados; Amandine Dupin, romancista francesa, usou George Sand e vestuário masculino; Violet Paget, britânica, ensaísta e autora de histórias sobrenaturais, adotou Vernon Lee; Alice Bradley Sheldon, por décadas, foi James Tiptree Jr., famosa autora de ficção científica; Nelle Harper Lee era apenas Harper Lee, ocultando sua identidade para soar mais ambíguo e masculino no mercado editorial; e, no século XX, Joanne Rowling, a britânica autora do Harry Potter, foi orientada a usar iniciais, J.K. Rowling, para não afastar leitores jovens do sexo masculino. Acreditem!
Voltando ao nosso pioneirismo internacional, Jane Austen (1775-1817), inglesa, uma das mais influentes, inovou ao focar na independência feminina e na crítica social com ironia; Mary Shelley (1797-1851), filha de Wollstonecraft, rompeu padrões vitorianos e criou o clássico "Frankenstein", marco da literatura gótica e de ficção científica.
O pioneirismo no século XX pode ser representado por Virginia Woolf (1882-1941), britânica, figura central do modernismo literário feminino, com seu estilo intimista (fluxo de consciência); Florbela Espanca (1894-1930), celebre poetisa portuguesa, ícone do feminismo e precursora da confessionalidade lírica, inovou com sua poesia intensa sobre amor, desejo, solidão e dor; Edith Wharton (1862-1937), primeira mulher a ganhar o Prêmio Pulitzer de Literatura (1921), retratava a alta sociedade americana; Agatha Christie (1890-1976), britânica, revolucionou o gênero policial e é uma das autoras mais traduzidas do mundo; Simone de Beauvoir (1908-1986), filósofa e escritora francesa, autora de "O Segundo Sexo", obra fundamental para o feminismo existencialista, diferente da luta por direitos; Júlia Lopes de Almeida (1862-1934), brasileira, combateu a supremacia masculina e defendeu o voto feminino na virada do século XIX para o XX; Gabriela Mistral (1889-1957), poetisa chilena, primeira mulher latino-americana a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura.
Essas mulheres precursoras abriram caminho para as vozes femininas alcançarem reconhecimento, enfrentando a segregação e o esquecimento histórico. Elas desafiaram as normas sociais de sua época e, com audácia, talento e competência, conquistaram lugar, fizeram-se ouvir e revelaram ao mundo o olhar feminino sobre quase tudo. Nós lemos os fatos de modo bem diverso.
Registro aqui o meu "muito obrigada, Guerreiras!"
Rosina Bezzera de Mello é doutora em estudos literários e professora