Com a proximidade das festividades do "Dia Internacional da Mulher", (8 de março, criado para celebrar conquistas sociais, trabalhistas, políticas e econômicas, hoje serve como dia de luta contra discriminação e violência), senti a necessidade de falar sobre a literatura produzida por mulheres tanto no âmbito nacional quanto no internacional. Comecemos pela brasileira.
A literatura escrita por mulheres, no Brasil, tem evoluído de uma classificação marginal para um espaço central de resistência e voz ativa, abordando questões de gênero (papéis sociais), raça, classe e dignidade. Procurei trazer exemplos representativos da complexidade do "ser feminino" e de sua vivência desde o ambiente doméstico até a conquista de novos espaços sociais. Desculpo-me, antecipadamente, por aquelas não citadas.
As pioneiras na escrita e nos temas do feminismo e da crítica social: Nísia Floresta, feminismo, com "Direitos das mulheres e injustiça dos homens" (1832), lutou pela igualdade intelectual e educacional; Maria Firmina dos Reis, negra e abolicionista, com "Úrsula" (1859); e Rachel de Queiroz, primeira mulher na ABL, foco na realidade nordestina. Retratando o cotidiano e a periferia, temos: Carolina Maria de Jesus, com "Quarto de Despejo", narra a realidade brutal da fome e da pobreza; Conceição Evaristo, com "Becos da Memória" e "Insubmissas lágrimas de mulheres", traz contos sobre violência doméstica e a experiência de negras marginalizadas. No tema subjetividade e existencialismo a pioneira foi Clarice Lispector, explorando a intimidade e a psique femininas desde seu primeiro livro "Perto do coração selvagem" (1943); Hilda Hilst e Adélia Prado abordam o erotismo, o misticismo e o corpo.
Entre os temas contemporâneos, temos: subversão dos papéis tradicionais, a sexualidade, o luto, o trabalho e o amor. Citamos, Ana Paula Maia, famosa pela prosa visceral, explora a brutalidade, a morte e o trabalho braçal, com "Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos"; Jarid Arraes e Djamila Ribeiro debatem feminismo, negritude e estrutura social.
Falando um pouco do pioneirismo internacional, apresentamos mulheres que se aventuraram no campo literário ainda na antiguidade clássica: Enheduanna (aprox. 2.300 a.C.), a primeira autora da história, era sacerdotisa e poeta mesopotâmica e escreveu em primeira pessoa sobre temas diversos; Safo de Lesbos (séc. VII a.C.), poeta lírica grega, famosa e consagrada como uma das vozes mais importantes da antiguidade.
Já na era moderna, Murasaki Shikibu (séc. XI), escritora japonesa, com "O Conto de Genji", obra considerada o primeiro romance moderno do mundo; Sor Juana Inés de la Cruz (1651-1695), poeta e erudita mexicana, uma das vozes mais importantes da literatura barroca na América Latina. Mary Wollstonecraft (1759-1797), filósofa britânica e precursora do feminismo, com "Uma Reivindicação dos Direitos da Mulher", influenciou Nísia Floresta. Continua no próximo artigo.
Rosina Bezerra de Mello é doutora em estudos literários e professora