Carnaval é tempo de extravasar. De esquecer os problemas. De fingir, por alguns dias, que o trabalho não existe.
Há quem vá aos blocos e se jogue na folia. Há quem apenas queira dormir, silenciar o celular e desaparecer por alguns dias.
Burnout é um termo em inglês que se popularizou—e que merece ser melhor entendido. Significa queimar até o fim.
Mas, para além da imagem, trata-se de um distúrbio emocional marcado por exaustão extrema, estresse persistente e esgotamento físico decorrente de situações de trabalho desgastantes. Sua principal causa é o excesso. Excesso de cobrança. Excesso de responsabilidade. Excesso de pressão contínua.
No carnaval, a queima é simbólica e tem data para acabar. No cotidiano profissional, quando a sobrecarga vira regra, a queima emocional é contínua, e a quarta-feira de cinzas pode durar o ano inteiro.
Especialistas que se dedicam ao tema descrevem o burnout como um quadro de esgotamento físico e mental provocado por estresse crônico, sempre relacionado ao ambiente de trabalho. A síndrome é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde como fenômeno ocupacional e envolve exaustão persistente, distanciamento emocional e sensação de ineficácia.
Em termos simples, a pessoa continua cumprindo metas, mas já não recupera a energia nem encontra sentido no que faz. Enão, o burnout não nasce no indivíduo.
Ele nasce em metas inalcançáveis. Em equipes reduzidas. Em jornadas invisíveis. Em lideranças que confundem pressão com competência.
Nasce também de uma estrutura que naturaliza ignorar o que o outro sente, organizações que tratam sofrimento psíquico como fraqueza e o afastamento como exagero.
O burnout não está restrito ao ambiente físico da empresa. Ele também atravessa o home office, onde as pressões mudam de forma, mas não de intensidade — a jornada se dilui, o descanso se fragmenta e a cobrança permanece.
Dados do Ministério da Previdência Social mostram que os afastamentos por burnout cresceram 493% entre 2021 e 2024, passando de 823 para 4.880 registros. Só nos primeiros seis meses de 2025 foram contabilizados 3.494 afastamentos, o equivalente a 71,6% do total de 2024.
Especialistas alertam para a subnotificação. Muitos casos seguem registrados apenas como ansiedade ou depressão, sem que se reconheça formalmente ao rigem ocupacional. O que aparece nas estatísticas é apenas parte do problema.
É confortável responsabilizar o indivíduo. Falar em falta de resiliência. Em incapacidade de lidar com pressão. Mais difícil é reconhecer que a forma como o trabalho vem sendo organizado produz adoecimento.
Às vezes, o que faltou não foi um grande programa de bem-estar corporativo. Faltou o básico da chefia: presença, escuta e disposição para redistribuir a carga antes que ela se tornasse insustentável. Ninguém escolhe sofrer.
A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que passa a exigir das empresas a identificação e o gerenciamento de riscos psicossociais a partir de maio de 2026, é um reconhecimento tardio de algo que os números já escancaram.
Sobrecarga sistemática, assédio e pressão constante não são traços de liderança. São fatores de risco.
O carnaval acaba. A rotina volta. Quando otrabalho adoece, não é o indivíduo que falhou.
*Jornalista, mestre e doutorando em Gestão e Políticas Públicas pela Fundação Getulio Vargas (FGV)