Por: Rosina Bezerra de Mello

Admirável mundo novo

O romance distópico escrito por Aldous Huxley (1932), "Admirável Mundo Novo" se passa em Londres no ano 2540 (632 DF - "Depois de Ford", na obra). A narrativa prevê avanços em reprodução humana artificial, manipulação genética e psicológica, hipnopedia, condicionamento clássico e desumanização, tudo combinado e sem ética para mudar a sociedade.

Huxley compôs a obra em diálogo crítico com escritos diversos, observando os avanços de seu tempo e citando-os na trama, ora no nome dos personagens, ora na sua função. Muitas obras de Shakespeare são citadas, o título tem origem no ato V da obra "A tempestade" (1611), no discurso de Miranda; as teorias de Henry Ford e Sigmund Freud são essenciais para o Estado Mundial. Ford recebe o crédito pela criação da Linha de Montagem, com divisão das etapas de trabalho, mecanização, padronização da produção e separação do manual e intelectual. Freud, unido a Ford no mesmo personagem, deve-se à tentativa de organizar o aparelho psíquico, para quem cada sistema tem sua função, semelhante ao modelo de Ford. Ambos os modelos julgam, criticam, censuram e proíbem, baseados nas regras aprendidas e impostas pelas castas dominantes. O Estado é agente regulador; H. G. Wells, escritor britânico de "Men Like Gods" e socialista utópico, é criticado pelos pressupostos antropológicos irrealista; Ivan P. Pavlov e John B. Watson, criadores das teorias de condicionamento do comportamento humano, têm o personagem Helmholtz Watson como alusão. No romance, o condicionamento clássico é utilizado em bebês; Karl Marx, autor de "O Manifesto Comunista", nomeia o protagonista Bernard Marx, questionador da sociedade em que vive; Charles Darwin, naturalista britânico de "A Origem das Espécies", propôs a teoria da seleção natural, citada por Darwin Bonaparte, para mostrar a origem selvagem e primitiva; Napoleão Bonaparte, comandante de exército, é citado por ter apoiado o movimento revolucionário, contrariando os oficiais franceses da elite aristocrata; Thomas Malthus, tem o nome usado para descrever a técnica anticonceptiva (cinto malthusiano) praticado pelas mulheres do Estado Mundial.

Essa mistura de referências faz sentido quando mergulhamos na narrativa. Bernard Marx, insatisfeito com o mundo onde vive, é fisicamente diferente dos integrantes da sua casta e sofre rejeição. Apaixona-se por Linda, mãe de John, uma "selvagem", alguém do passado vivendo em uma "reserva histórica" semelhante às reservas indígenas: lugar de preservação de costumes "selvagens" (da época do livro). Bernard vislumbra a chance de ganhar respeito social ao apresentar John, um "selvagem", à civilização. Para a sociedade civilizada, um filho é ato obsceno e impensável, assim como, uma crença religiosa é ignorância e desrespeito.

Na obra há o contraste entre a hipotética civilização ultraestruturada e as impressões humanas e sensíveis do "selvagem" John, a aberração que fascina os habitantes. Coincidências?

Rosina Bezerra de Mello é doutora em estudos literários e professora