Quando o acesso à saúde mental é desigual, a terapia com psicólogo ou mesmo uma consulta com um médico psiquiatra passam a ser vistas como privilégio de poucos. No Brasil, essa percepção não surge por acaso, mas da experiência concreta de quem não consegue acesso ao cuidado: quando ele não funciona como política pública, passa a depender de renda, informação e sorte.
Às vezes, a pessoa sequer sabe onde dói — ou por que dói. Não há quem diga que aquela falta de ar, aquela angústia difusa, aquilo que só ela sente, é uma crise de ansiedade. Sem escuta e sem orientação, o sofrimento permanece sem nome — e, portanto, sem cuidado.
O colega de trabalho boa-praça, que toma café na copa da empresa e arranca algumas risadas ao longo do expediente, pode estar enfrentando em silêncio uma doença que dói tanto quanto uma dor física. Ainda assim, em 2026, esse adoecimento segue sendo tratado como algo de menor importância, atravessado por estigma e desconfiança em relação a quem busca ajuda.
Pesquisa recente divulgada pela Ipsos mostra que 52% dos brasileiros apontam a saúde mental como o principal problema de saúde do país. Ainda assim, entre reconhecer o problema e garantir cuidado efetivo, há um abismo.
Essa invisibilidade tem raízes estruturais. Cerca de 70% dos municípios brasileiros não contam com um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), segundo dados do próprio sistema público de saúde. Onde o serviço não existe, o cuidado deixa de ser direito e passa a ser exceção.
Os próprios protocolos do SUS deixam claro que, em casos leves e moderados de depressão, a escuta especializada deve vir antes dos remédios. A psicoterapia não é moda nem capricho: é uma prática reconhecida como parte do cuidado em saúde. O problema é que, na maior parte do território, ela simplesmente não chega.
Ironicamente, não faltam psicólogos para tratar quem precisa. O Brasil já ultrapassou a marca de 580 mil profissionais ativos, mas menos de 10% atuam vinculados ao SUS, atendendo uma população que, em sua maioria, depende exclusivamente do sistema público. O resultado é uma contradição evidente: há profissionais em número suficiente, mas o acesso ao cuidado permanece restrito a quem pode pagar.
O custo dessa desassistência aparece depois. O Estado economiza na prevenção, ao destinar menos de 1% do orçamento da Saúde às doenças psíquicas, e empurra o problema para a ponta final do sistema. Apenas em 2025, os afastamentos do trabalho por transtornos mentais somaram 546 mil casos, gerando um impacto estimado de até R$ 3,5 bilhões em gastos previdenciários. É uma política que poupa na escuta e investe no colapso.
Enquanto o acesso ao cuidado não for garantido por políticas públicas de saúde mental eficazes, a renda continuará definindo quem merece ser ouvido.
*Jornalista, mestre e doutorando em Gestão e Políticas Públicas pela Fundação Getulio Vargas (FGV)