Há uma pergunta incômoda pairando sobre a política brasileira que poucos têm coragem de verbalizar: e se o país não precisar de um herói em 2026?
A polarização que domina o debate público há quase uma década criou uma ilusão óptica. Convencemo-nos de que só existem dois caminhos: o da redenção pela esquerda ou o da salvação pela direita. O centro, nessa narrativa, um terço dos eleitores, virou sinônimo de covardia, um não lugar habitado por aqueles que se recusam a escolher um time. Mas e se essa recusa não for covardia? E se for, simplesmente, exaustão?
É nesse contexto que ressurge, quase como um espectro da política institucional, o nome de Michel Temer. Aos 85 anos, o ex-presidente declarou recentemente que estaria disposto a disputar o Planalto, desde que houvesse união de mais partidos. A reação foi previsível: um silêncio revelador nos corredores de Brasília. Silêncio na imprensa posicionada.
Revelador porque, no fundo, ninguém consegue articular exatamente por que Temer seria impopular? Lula foi impopular por décadas antes de vencer. Velho? Trump está reorganizando o planeta aos 80 anos. Sem carisma? Talvez esse seja, paradoxalmente, seu maior ativo. Até porque o carisma de um lado é o ódio do outro.
Existe uma categoria de liderança que não aparece nos manuais de ciência política, mas que qualquer síndico de condomínio conhece bem, como o de presidente de um conglomerado diante do seu conselho ou da bolsa de valores: a do gestor que funciona justamente porque ninguém presta atenção nele, pessoalmente. Não é o herói de capa e espada. Ele não inspira paixões, não mobiliza multidões, não gera memes. Mas, quando o elevador quebra, é consertado. Quando a conta fecha, ela fecha. Quando o país funciona, simplesmente funciona.
O governo Temer, entre 2016 e 2018, foi exatamente isso. Sob o ruído ensurdecedor do impeachment, da Lava Jato e das denúncias da PGR, poucos perceberam que a máquina funcionava. A inflação, que havia superado 10% em 2015, fechou 2017 em 2,95%, a menor desde o Plano Real. A taxa Selic, que estava em 14,25% quando ele assumiu, caiu para 6,5%, o menor patamar da história. O PIB, que acumulava queda de quase 7% em dois anos, voltou a crescer.
Isso não é opinião favorável. São dados do Banco Central e do IBGE. Pode-se, é claro, argumentar que esses resultados advieram a um custo social alto: o teto de gastos, a reforma trabalhista. Pode-se questionar a legitimidade de origem do governo, que foi legítimo por lei. São debates possíveis. Mas o que não se pode fazer é ignorar que, em termos de entrega macroeconômica, o governo Temer foi mais eficiente do que seus antecessores e, até aqui, do que seus sucessores.
Se Temer é uma figura controversa, o MDB é um enigma. O partido da redemocratização, que já foi sinônimo de poder institucional no Brasil, vive hoje sua pior crise de identidade. Perdeu a liderança no Senado em 2023, após 25 anos consecutivos. Perdeu a liderança em prefeituras em 2024, pela primeira vez em décadas. Sangra filiados, mais de 360 mil desde 2019.
O diagnóstico é claro: o MDB vive uma crise existencial. Não é governo nem oposição. Não é esquerda nem direita. Nem precisa ser. Não tem projeto federal nem candidato presidencial, ainda. Virou, nas palavras de um dirigente que preferiu não se identificar, "uma confederação de chefes regionais sem bandeira comum".
Nesse cenário, a candidatura Temer não é apenas uma aposta eleitoral. É uma tentativa de dar ao partido uma razão para existir. Mesmo que não vença, concorre, e o fato de lançar uma candidatura própria obriga o MDB a se posicionar, trazendo o maior partido da história moderna do Brasil à tona. A dizer o que defende, a quem representa, por que alguém deveria filiar-se a ele.
Partidos morrem não quando perdem eleições, mas quando perdem propósito. O custo já foi pago.
Há um fenômeno na teoria política chamado de "bode expiatório". Em momentos de crise, sociedades elegem alguém para canalizar toda a raiva coletiva. Temer foi esse bode em 2016, 2017, 2018. A rejeição de 82% não era apenas impopularidade; era um ritual de purificação nacional, mesmo sendo o melhor governo, por hora e dia, da nossa modernidade.
A ironia é que a própria intensidade do ódio que Temer recebeu pode tê-lo vacinado. Ele já sobreviveu ao pior cenário possível.
Aos 85 anos, Temer oferece algo que nenhum outro candidato pode: a certeza de que não tentará a reeleição. Não há projeto de poder pessoal, não há dinastia a construir, não há 2030 no horizonte. É, potencialmente, um presidente de transição consciente, como alguém que governaria para a história, não para as pesquisas.
Para governadores ambiciosos como Tarcísio, Ratinho Jr. ou Zema, isso é música. Apoiar Temer não significa criar um rival; significa ganhar tempo. Para o Congresso, é a promessa de um Executivo que negocia em vez de ameaçar. Para o mercado, é previsibilidade e elevação do patamar do debate, o ativo mais escasso em tempos de incerteza global.
Michel Temer não provoca paixões. Mas, em um país exausto de amar e odiar seus presidentes, talvez seja exatamente disso que precisamos: alguém para quem possamos ser indiferentes enquanto ele faz as coisas funcionarem.
Não é épico. Não é inspirador. Mas, às vezes, o Brasil não precisa de épica. Precisa de um rumo. Seriam quatro anos para voltar a pacificar o país. Desmontar o Lego dos absurdos. Recuar em equívocos e intratabilidade. O nome disso: serviço público de alta qualidade. Não seria apenas muito bom. Seria salvar o país de si mesmo, de novo.
*Senior Fellow do Milken Institute, foi ministro do Turismo e secretário de Turismo e Viagens de São Paulo.