A humanidade,pretendendo ser civilizada,foi aos poucos colocando coleiras e amarrando guias que visam subjugar a feroz matilha dos seus próprios instintos.
A qual continuou existindo — aprisionada — vez por outra liberando um assustador cão-lobo, suficientemente selvagem para estraçalhar e avançar contra as boas práticas, as boas maneiras,os modos civilizados. Solta a fera, surgem estragos.
Muitas tendências vão e voltam, revelando o quão profundas podem ser as influências oriundas do tempo em que, a parte mais aquinhoada da humanidade, residia em cavernas. A parte menos aquinhoada, sobre as árvores.
E isso não é difícil de entender, são mais ou menos seis mil anos de processo civilizatório contra mais de um milhão de anos no meio dos matos e lugares inóspitos.
Por isso a feroz cachorrada precisa estar presa por leis, acordos, pactos, não devendo poder interferir na melhora constante da convivência humana.
Quando em 1774 o maior escritor alemão , Johann von Gothe, publicou " Os sofrimentos do jovem Werter", as desventuras daquele personagem que se mata por amor tiveram impacto tão absurdo na juventude daqueles tempos que,onde o livro circulou, ativou um surto de imitações que assustou e destruiu famílias e apavorou autoridades. Em muitos lugares a obra foi depois proibida,mas os estragos já feitos acompanharam o mapa dos lugares onde ela foi traduzida e publicada.
A partir daí,surgiram estudos sérios — e pesquisas igualmente — que resultaram num novo pacto em muitos países ocidentais: sim, é preciso falar no assunto,mas evitando entrar em detalhes e reduzindo ao mínimo a descrição de particularidades de suicídios, para minimizar a incidência e evitar a reprodução do Efeito Werter por seres humanos desesperados, sem encoraja los — mesmo inocentemente — a que sigam o roteiro das pessoas falecidas tragicamente.
Tenho acompanhado notícias do Brasil e de boa parte do mundo e me deparo diariamente com escabrosos detalhes de feminicidios.
Penso se não residiria aí uma outra faceta do que poderia ser um tipo de Efeito Werter. O detalhamento dos atentados,com todos os seus requintes e pormenores, as armas usadas, a repetição reiterada do "modus operandi" de uns casos narrados novamente nos outros, me fazem pensar em — até que ponto — algumas dessas ações não estariam sendo estimuladas inocentemente por minúcias dos gestos assassinos, machistas, desesperados, covardes, numa lógica troglodita que não encontra justificativa possível nos dias de hoje.
Sim, temos que falar no assunto. Não podemos parar de falar. Mas aos que estudam o tema, sugiro que o abordem também por esse aspecto, como se deveria falar.
Afinal, precisamos achar uma maneira mais eficiente de lutar para impedir a fuga dessas bestas feras que cotidianamente se soltam,matam mulheres e arrasam e destroem tantas famílias e comunidades. Precisarmos falar nesse assunto.
*Jornalista