O sincretismo religioso é um fenômeno cultural que ocorre quando diferentes tradições religiosas se influenciam mutuamente, criando práticas e crenças híbridas. No Brasil, um dos exemplos mais marcantes desse processo é encontrado nas celebrações de Iemanjá, orixá do candomblé e da umbanda, conhecida como a divindade das águas e mãe de todos os orixás. As festas em sua homenagem, especialmente aquelas realizadas no dia 2 de fevereiro, são momentos de grande visibilidade da religiosidade afro-brasileira, mas também ilustram de forma clara o sincretismo religioso que caracteriza muitas práticas religiosas no país.
Historicamente, o sincretismo religioso no Brasil surgiu com a chegada dos colonizadores portugueses e a subsequente imposição do cristianismo sobre as populações indígenas e africanas. Com a escravização de milhões de africanos, principalmente das regiões da África Ocidental, o candomblé e outras religiões de matriz africana começaram a se misturar com elementos do catolicismo, para disfarçar suas crenças e práticas diante das autoridades coloniais. No caso de Iemanjá, a orixá foi associada à figura de Nossa Senhora dos Navegantes, padroeira dos pescadores e das águas, o que permitiu que os praticantes de candomblé mantivessem suas devoções em segredo durante o período de repressão religiosa.
O sincretismo entre Iemanjá e Nossa Senhora dos Navegantes é um dos exemplos mais evidentes de como as religiões africanas e a religião católica se mesclaram ao longo dos séculos, mas não é o único. Muitas outras divindades do candomblé e da umbanda também têm suas correspondências com santos católicos. Exemplo disso é Oxalá, que se associa a Jesus Cristo, ou Ogum, que é relacionado a São Jorge. Esse processo de sincretismo não significa que as pessoas que praticam o candomblé ou a umbanda tenham abandonado sua fé nas divindades africanas, mas sim que criaram uma forma de manter sua religiosidade viva, adaptando-a ao contexto social e político.
As festas de Iemanjá, que ocorrem em várias partes do Brasil, especialmente em Salvador e no Rio de Janeiro, são momentos de celebração, mas também de resistência cultural. Na Bahia, por exemplo, as praias se transformam em locais de devoção, com milhares de fiéis levando oferendas, como flores, perfumes, espelhos, e comida, para agradecer ou pedir favores à divindade. A figura de Iemanjá é representada de diversas maneiras, mas sempre com forte simbolismo de feminilidade e poder sobre as águas. A imagem de Nossa Senhora dos Navegantes também é cultuada por muitos, em um sincretismo que transcende as fronteiras entre os diferentes sistemas de crenças.
O sincretismo religioso nas festas de Iemanjá, no entanto, não é isento de controvérsias. Para alguns, essa fusão de elementos é uma forma de resistência e adaptação frente à opressão religiosa e cultural que as religiões de matriz africana sofreram ao longo dos séculos. Para outros, é um reflexo da perda de identidade e pureza das tradições africanas, uma acomodação da religiosidade ao cristianismo dominante. De fato, muitos adeptos do candomblé e da umbanda preferem se afastar do sincretismo com o catolicismo, buscando enfatizar a originalidade e a autonomia das suas práticas religiosas.
Portanto, o sincretismo religioso nas festas de Iemanjá não deve ser visto de forma simplista, como uma simples adaptação religiosa, mas como um fenômeno complexo que envolve elementos de resistência, adaptação, preservação e afirmação cultural. Ele é um reflexo da história do Brasil, marcada por múltiplas influências, encontros e conflitos, mas também por uma riqueza de significados e práticas que continuam a moldar a sociedade brasileira até os dias de hoje. O sincretismo nas festas de Iemanjá é, assim, uma expressão viva e multifacetada da religiosidade popular brasileira.
*Jornalista e Historiador