Por: Victor Corrêa*

O peso invisível do início do ano

O ano vira, e a vida continua. Todo janeiro repete o mesmo enredo.

Pouco antes da virada, a roupa nova já está ali, muitas vezes ainda com a etiqueta, aguardando o momento que promete a grande mudança. "Agora vai!", pensa quem, entre rituais e promessas, arriscou a sorte na Mega-Sena — mesmo sabendo que a chance de acerto é de uma em mais de 50 milhões.

A cor branca domina a cena, basta observar a multidão em Copacabana ou em qualquer outro canto do país. Tem quem vá além na superstição e escolha cores específicas: verde para a esperança, amarelo para o dinheiro e o vermelho, associado ao amor.

É justamente essa mesma cor vibrante, o vermelho, que assombra boa parte dos brasileiros logo no dia 1º de janeiro — não como símbolo de paixão, mas como a realidade do extrato bancário, mesmo para quem cumpriu alguns dos rituais de prosperidade, como pular as sete ondas e comer as sete uvas debaixo da mesa.

Datas simbólicas criam a ilusão de ruptura com o passado, mesmo que a vida concreta não mude. Quando a promessa simbólica não se realiza, surge frustração, culpa e sensação de fracasso precoce. O mês da "esperança" é também um mês de sofrimento silencioso.

Neste ponto, o problema deixa de ser individual e revela uma falha sistêmica. O Brasil tem uma das maiores prevalências de transtornos de ansiedade do mundo, segundo a OMS

— mas os números só contam parte da história. Violência urbana, desigualdade, excesso digital e fenômenos recentes, como as apostas online e o adoecimento precoce de adolescentes, aumentam a pressão sobre a saúde mental.

A rede pública de atenção psicossocial é prevista em políticas públicas, mas muitas vezes falha na prática. A demora no atendimento e a falta de acompanhamento tornam o cuidado precário — e o sofrimento, invisível.

Como dizia Millôr Fernandes: "o otimista não sabe o que o espera". O problema não é a esperança em si, mas acreditar que um mês ou uma cor deem conta do que exige cuidado o ano inteiro.

No fim das contas, mais importante do que qualquer símbolo ou boleto é garantir condições emocionais para atravessar o desconhecido. Janeiro passa, mas a nossa mente nos acompanha em cada etapa desses doze meses que virão.

*Jornalista, mestre e doutorando em Gestão e Políticas Públicas pela Fundação Getulio Vargas (FGV).