Por: Barros Miranda*

A falta de ídolos no esporte

A discussão sobre a falta de ídolos no esporte brasileiro vai além da simples ausência de grandes talentos. O Brasil continua revelando atletas competitivos e vencedores, mas a construção de ídolos — figuras que transcendem resultados e se tornam símbolos coletivos — parece cada vez mais rara. Esse fenômeno está ligado a mudanças culturais, midiáticas e até sociais que transformaram a relação entre o público, o esporte e seus protagonistas.

Durante décadas, ídolos como Pelé, Ayrton Senna, Zico ou Hortência representaram muito mais do que conquistas esportivas. Eles simbolizavam esperança, identidade nacional e superação em um país marcado por desigualdades. Suas trajetórias eram acompanhadas com admiração quase unânime, em uma época em que a exposição era limitada e a narrativa heroica prevalecia. Hoje, porém, o excesso de informação e a hiperexposição nas redes sociais tornaram os atletas mais acessíveis, mas também mais vulneráveis a críticas constantes, julgamentos precipitados e cancelamentos.

O imediatismo do esporte moderno contribui para a dificuldade de consolidação de ídolos. Jovens atletas são elevados a esse status precocemente, sem tempo para amadurecer, e logo são substituídos quando os resultados não aparecem. A pressão excessiva por vitórias e performances perfeitas impede a construção de narrativas duradouras, essenciais para a idolatria. O erro, que faz parte do processo esportivo, passou a ser tratado como fracasso definitivo.

Outro ponto relevante é a mercantilização do esporte. Atletas são constantemente associados a marcas, contratos e estratégias de marketing, o que muitas vezes afasta o público. A sensação de espontaneidade e autenticidade se perde em meio a discursos ensaiados e imagens cuidadosamente produzidas. O ídolo deixa de parecer alguém "como nós" e passa a ser visto apenas como um produto.

Por fim, é preciso reconhecer que a própria sociedade brasileira vive uma crise de referências. Em um ambiente de polarização, desconfiança e críticas constantes, tornou-se difícil sustentar figuras amplamente admiradas. Talvez não faltem ídolos em potencial, mas sim disposição coletiva para construí-los e preservá-los. Resgatar essa relação exige tempo, empatia e a compreensão de que ídolos são humanos — falhos, complexos e, justamente por isso, inspiradores.

*Jornalista e Historiador