Por: Barros Miranda*

Os ruídos modernos no Irã

Os protestos no Irã representam muito mais do que episódios isolados de revolta popular; eles são a expressão visível de uma fratura profunda entre o regime político e parcelas significativas da sociedade. Desde a Revolução Islâmica de 1979, o país é governado por um sistema teocrático que concentra poder nas mãos do clero xiita e limita severamente liberdades civis e políticas. Durante décadas, esse modelo conseguiu se sustentar por meio de uma combinação de legitimidade religiosa, nacionalismo e repressão. No entanto, os protestos recentes indicam que esses pilares estão cada vez mais enfraquecidos.

As manifestações ganharam força sobretudo a partir de demandas sociais e culturais, com destaque para a luta das mulheres contra a imposição de normas rígidas de comportamento e vestimenta. A morte de jovens em circunstâncias ligadas à repressão estatal funcionou como catalisador de uma indignação que já vinha sendo construída há anos. O que diferencia esses protestos de outros momentos históricos é seu caráter abertamente contestador do sistema como um todo, e não apenas de políticas específicas. O grito que ecoa nas ruas vai além de reformas: questiona a própria legitimidade do regime.

A juventude iraniana desempenha papel central nesse processo. Conectada às redes sociais, exposta a outras realidades culturais e menos vinculada à memória da Revolução de 1979, essa geração demonstra pouca disposição para aceitar sacrifícios em nome de uma ideologia que não escolheu. Para muitos jovens, o regime não representa proteção nem identidade, mas sim controle, censura e falta de perspectivas econômicas. A inflação elevada, o desemprego e o isolamento internacional aprofundam a sensação de estagnação e reforçam o desejo de mudança.

Apesar da força simbólica e social dos protestos, a possibilidade de uma mudança imediata no regime político enfrenta limites concretos. O Estado iraniano dispõe de um aparato repressivo eficiente, com forças de segurança e instituições, como a Guarda Revolucionária, profundamente comprometidas com a manutenção do status quo. Além disso, a oposição carece de uma liderança unificada e de um projeto político claro que consiga transformar a insatisfação popular em alternativa de poder. A ausência dessa articulação facilita a repressão e dificulta a transição para um novo modelo político.

O contexto internacional também exerce influência ambígua. Sanções econômicas e pressões diplomáticas enfraquecem o país, mas ao mesmo tempo fornecem ao regime um discurso conveniente, que associa protestos a interferências estrangeiras. Esse argumento, embora cada vez menos convincente para a população urbana, ainda encontra eco em setores mais conservadores e contribui para manter certa coesão interna.

Nesse sentido, os protestos no Irã sinalizam um processo em curso, ainda que incerto e doloroso. A mudança política pode não ser imediata, mas a relação entre sociedade e Estado já foi profundamente alterada. O medo, que durante décadas sustentou o regime, começa a perder eficácia diante de uma população cada vez mais consciente de seus direitos e disposta a reivindicá-los. O futuro do Irã permanece aberto, mas uma coisa parece clara: o regime atual enfrenta um desafio existencial que não pode mais ser ignorado.

*Historiador e Jornalista