A chic, ou "esquerda caviar", não é exatamente uma ideologia. É um tipo social e estético. O termo surgiu na França, nos anos 1980, como gauche caviar, para ironizar intelectuais socialistas que defendiam igualdade enquanto levavam vidas de alta distinção cultural. A economia europeia voava na reconstrução. Seu cenário clássico eram os cafés da Rive Gauche, Flore, Deux Magots, Brasserie Lipp, onde se falava em revolução com charme e literatura, de Sartre e Beauvoir. Esses bastiões do existencialismo continuam lá. Agora turísticos. Faço aqui um disclaimer pela lógica deste artigo: minha primeira filiação partidária foi no PDT, pelas mãos de Darcy Ribeiro, a quem homenageio até hoje por sonhar com paixão um Brasil que se transformaria numa "Roma Morena". Ainda há tempo. O que não há mais são ideias.
Voltemos ao assunto. O conceito se espalhou: champagne socialist no Reino Unido, limousine liberal nos EUA, radical chic na Itália, "socialista de salão" na Alemanha. No Brasil, ganhou versão própria: a esquerda festiva, expressão exagerada, cunhada para descrever uma militância mais preocupada com eventos, linguagem e circulação simbólica do que com formulação de políticas públicas. Política mais como performance.
Depois das invasões soviéticas da Hungria e da Polônia, nos anos 1950, e da Tchecoslováquia, em 1968, a esquerda europeia perdeu Moscou como farol moral. Precisava de outro rosto. Os cafés parisienses passaram a receber Chou En-lai, diplomata elegante da China comunista, que virou ícone palatável de um regime "alternativo". Pouco depois veio a Revolução Cultural, com perseguições e massacres, e novamente o silêncio. Décadas mais tarde, a China adotaria o capitalismo de Estado e tiraria centenas de milhões da pobreza, deixando a esquerda caviar sem face em todo o mundo. Incapaz de lidar com a evidência empírica, ela se refugiou no identitarismo, que está acabando por engoli-la.
Há nisso um fundo platônico. Prefere-se a ideia pura da revolução ao mundo imperfeito das consequências. É o esquerdismo platônico: idealiza-se o Bem e relativiza-se o Mal quando ele surge "do lado certo da história". Daí a seletividade moral.
Nos Estados Unidos, Hollywood deu forma global a esse estilo, mas a esquerda liberal foi engolida pela esquerda woke, num canibalismo político. Bill Maher descreve isso com humor ácido: o liberalismo clássico foi substituído por tribunais morais permanentes. O símbolo dessa "farsa" apareceu no Globo de Ouro, quando Rick Gervais mandou atores "pegarem seus prêmios e irem embora", lembrando que eles não entendiam nada de política e que muitos haviam passado menos tempo na escola do que Greta Thunberg.
No Brasil, esses traços também ocorrem. No ano passado, Fernanda Torres, genial e inteligente atriz, foi justamente celebrada no exterior. Este ano, Wagner Moura, também brilhante, talvez o maior da história do Brasil, e a equipe de um filme premiado com dois Globos de Ouro converteram a premiação em palanque antes mesmo de o público assistir à obra. Um articulista da Folha pediu que se analisassem os filmes sem o filtro ideológico. Faz sentido: roubou-se da audiência o direito à experiência estética.
Esse padrão ajuda a entender também o silêncio de parte do mundo artístico diante da repressão e dos assassinatos covardes por um Irã medieval. A escritora J.K. Rowling chamou a atenção para a incoerência de quem se diz defensor de direitos humanos, mas evita condenar a teocracia dos aiatolás. Protesta-se com facilidade contra abstrações do "sistema", mas não quando o opressor não rende o aplauso dirigido e condicionado.
Ao não compreender o seu próprio tempo e permanecer presa à mitologia dos cafés parisienses de uma velha Paris, a esquerda chique comporta-se como se ainda estivéssemos em 1968. Esse deslocamento a condena a ser engolida pela esquerda woke, identitarista e punitiva, fenômeno já visível nos EUA e que começa a se reproduzir no Brasil. A sofisticação e a abrangência do chic perdem para a obtusidade do woke. Ao abdicar de projeto atualizado e moderno, ao substituir política e diálogo com seu tempo por moralismo e passadismo, essa esquerda caminha para a própria brutalização, woke tornando-se, ironicamente, tudo aquilo que acusa a extrema direita de ser.
*Vinícius Lummertz é Senior Fellow do Milken Institute, foi ministro do Turismo e secretário
de Turismo e Viagens
de São Paulo.