Por: Barros Miranda*

União Europeia, Mercosul e um acordo comercial

O acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul representa uma das mais relevantes iniciativas de integração econômica das últimas décadas e traz benefícios estratégicos significativos para o bloco europeu. Em um cenário global marcado por tensões geopolíticas, disputas comerciais e crescente protecionismo, a celebração desse acordo reforça o compromisso da União Europeia com o multilateralismo, a abertura econômica e a cooperação internacional baseada em regras claras.

Um dos principais pontos positivos para a União Europeia é a ampliação do acesso a um mercado de mais de 270 milhões de consumidores do Mercosul. A redução ou eliminação de tarifas alfandegárias favorece especialmente setores industriais europeus de alto valor agregado, como automóveis, autopeças, produtos farmacêuticos, máquinas, equipamentos industriais e bens químicos. Esses segmentos, nos quais a Europa possui elevada competitividade tecnológica, passam a enfrentar menos barreiras, o que pode resultar em aumento das exportações, fortalecimento das empresas europeias e geração de empregos dentro do bloco.

Além disso, o acordo contribui para a diversificação das cadeias de suprimento europeias. Ao estreitar laços comerciais com países sul-americanos, a União Europeia reduz sua dependência excessiva de determinados mercados e fornecedores, especialmente em um contexto de instabilidade nas relações comerciais globais. Essa diversificação é estratégica para garantir maior resiliência econômica, maior autonomia estratégica e segurança no abastecimento de matérias-primas e produtos agrícolas essenciais para a indústria e o consumo europeu.

Outro aspecto relevante é o fortalecimento da posição geopolítica da União Europeia. Ao firmar um acordo dessa magnitude, o bloco europeu amplia sua influência política e econômica na América do Sul, equilibrando a presença de outras potências globais na região. O tratado também consolida a UE como um ator central na definição de padrões internacionais de comércio, sustentabilidade, direitos trabalhistas e proteção ambiental, uma vez que o acordo incorpora compromissos nessas áreas e cria mecanismos de diálogo e monitoramento.

No campo normativo, o acordo favorece a harmonização de regras e a previsibilidade jurídica para empresas europeias que desejam investir ou operar nos países do Mercosul. A proteção da propriedade intelectual, o reconhecimento de indicações geográficas e a maior transparência regulatória são ganhos concretos que beneficiam produtores europeus, especialmente dos setores agroalimentar, vinícola e de produtos tradicionais, valorizando a identidade e a qualidade dos bens europeus no mercado internacional.

Do ponto de vista do consumidor europeu, o acordo também traz vantagens diretas. A maior oferta de produtos agrícolas e matérias-primas do Mercosul tende a aumentar a concorrência e contribuir para preços mais acessíveis, ao mesmo tempo em que assegura padrões sanitários e fitossanitários compatíveis com as exigências europeias. Isso amplia as opções disponíveis no mercado interno sem comprometer a segurança alimentar nem a qualidade dos produtos.

Adicionalmente, o acordo cria oportunidades para pequenas e médias empresas europeias, que passam a ter melhores condições de acesso a mercados antes considerados complexos ou excessivamente protegidos. A simplificação de procedimentos aduaneiros e a redução de barreiras técnicas facilitam a internacionalização dessas empresas, promovendo inovação, crescimento e maior dinamismo econômico dentro da União Europeia. Soma-se a isso o estímulo ao investimento direto europeu na região, com impactos positivos sobre competitividade e retorno econômico.

Por fim, o acordo UE-Mercosul possui um valor simbólico e estratégico significativo. Ele demonstra que é possível avançar em acordos amplos e complexos mesmo em um contexto internacional adverso, reforçando a liderança europeia na promoção de um comércio mais aberto, previsível e sustentável. Para a União Europeia, trata-se não apenas de um acordo econômico, mas de uma aposta de longo prazo em cooperação, estabilidade política e crescimento compartilhado.

*Jornalista e Historiador