Desde 1823 a América tem um lema forte, capitaneado pelos Estados Unidos: "América para os americanos". Mais do que reforçar a soberania dos povos daqui, ele serve para mostrar a soberania norte-americana para os demais países do continente. Naquela época, o lema servia para dizer aos europeus para não intervir em qualquer assunto do continente, e que a recíproca aconteceria também pelo lado estadounidense. Não por menos, várias nações foram se tornando independentes depois dessa doutrina, falada pelo então presidente dos EUA James Monroe. Os anos foram se passando e ela volta e meia é usada para mostrar o poder norte-americano no continente. Mas agora, parece que um presidente quer fazer a sua própria, tendo Monroe como espelho.
A escalada militar de Donald Trump na Venezuela para capturar Nicolas Maduro e levar para os EUA, para ser julgado na Corte de Nova York por tráfico internacional de drogas, tem vários contextos políticos, econômicos e sociais por trás. O principal deles, claro, não venha a ser libertar o povo venezuelano de um governo autoritário e pouco democrático, e sim conquistar, novamente, a soberania da exploração do petróleo no país.
A Venezuela tem uma das maiores reservas petrolíferas do mundo e é o principal país da Opep na América. Porém, desde o segundo governo de Hugo Chávez, uma onda de estatização da exploração assola o território. Todavia, se com ele havia mais diálogo político internacionalmente, com Maduro isso se rompeu. O sucessor do Chavismo foi além dos limites democráticos e proclama um modelo político que mais se assemelha a uma ditadura do que uma república. A quantidade de venezuelanos que vem ao Brasil é uma prova disso. E nas últimas eleições, muitos países não aceitaram sua vitória, como o nosso, por supostas fraudes nos resultados.
Bush, Obama e Biden não fizeram nada a respeito disso. Condenaram na forma diplomática, para não ferir aquilo que chamam de "soberania do território". Trump foi além. Usou os limites da Doutrina Monroe e travou uma invasão militar para conseguir o seu troféu: Maduro. Agora, não se sabe o que acontecerá com a Venezuela daqui em diante, mas, pelas primeiras falas do presidente norte-americano, muito pode ser igualado à Cuba de 1901.
No século XIX, várias colônias hispânicas foram se tornando independentes de Portugal e Espanha, e todas tinham o reconhecimento dos Estados Unidos de imediato como país. Uma das últimas a conseguir isso foi Cuba. Criada pelo senador Orville H. Platt, uma emenda na constituição cubana permitia a intervenção norte-americana na ilha para preservar sua "independência", controlar sua economia, limitar dívidas e ceder território para bases navais. A chamada Emenda Platt transformou Cuba no quintal dos EUA durante muito tempo. Qualquer semelhança pode ser mera coincidência, mas Trump pode fazer da Venezuela o quintal dos Estados Unidos na América do Sul, já que, de acordo com as suas palavras " vai liderar um governo provisório no país".
O que muitos podem não considerar é a grande repercussão internacional da medida. Se Trump realmente vier a comandar a Venezuela ou por um testa de ferro, como fora Fulgêncio Batista em Cuba, a chance do país voltar a ser uma nação mais democrática é grande. Contudo, existem duas nações que estão de olho nos movimentos e que devem entrar nas negociações: China e Rússia. Por mais que ambas estejam com entraves com os EUA, seja pelas questões econômicas ou pela Guerra da Ucrânia, as duas são fortes parceiras de Maduro e não devem permitir que o plano de Trump fique como está. Partir para o diálogo com o presidente norte-americano deve estar nas premissas de Putin e Xi-Jinping, mas, no momento, aguardarão os próximos capítulos, já que estão entrelaçados com outros assuntos com Trump.
Como empresário, Donald não entra em negócios para perder. Faz-se um leão com seu rugido para intimidar, depois, senta-se à mesa para chegar a um denominador comum entre as partes. Resta saber quando e como será essa conversa. Até lá, Maduro ficará em território norte-americano, a Venezuela com a vice-presidente no comando do país, por decisão da Suprema Corte local, e o povo celebrando o fim de um governo autoritário.
No continente, as nações já estão se mexendo para criticar o ato, pelo fato do desrespeito à "soberania territorial". Tirar um presidente de um país da forma como foi é algo desnecessário e totalmente fora de contexto. Mas, para Trump, pouco importa, pois o que está em jogo é o seu poder e sua plenitude como principal nação do mundo. Muitos podem o parabenizar pela coragem, mas não pela ação. Marine Le Pen seguiu nesta linha. Macron também. Até o Papa Leão XIV emitiu nota criticando o desrespeito à constituição.
O que Trump fez nada mais foi do que seguir as premissas da Doutrina Monroe, mas, a partir da sua interpretação e do seu "modus operandi". Certo ou errado, para ele pouco importa, e sim fazer o seu plano ser perfeito e sem erros, como todo bom empresário deseja no controle de sua empresa. Resta agora saber se seus eleitores vão aprovar isso ou não, já que seu mote de campanha era fazer a América Grande Novamente, mas, ao que tudo indica, ele está mais preocupado em resolver problemas externos do que internos. E isso pode custar caro, com o fim do controle da Câmara e do Senado, com os democratas voltando a ter voz nas duas casas, e ele se complicando em por suas medidas em prática.