Há pelo menos três meses, Carol Gomes, 40, moradora da comunidade Morro da Lua, no Jardim Ingá, distrito de Campo Limpo, zona sul de São Paulo, armazena água em um tanque e em baldes e garrafas. É a única alternativa, ela diz, para que a família de quatro pessoas tenha água para beber, tomar banho e cozinhar.
"Chegamos a ficar três, cinco dias direto sem água, e o único dinheiro que temos para a condução, para ir trabalhar, usamos para comprar. E armazenamos do jeito que dá", afirma.
Por medo de contrair dengue, Carol conta que cobre o tanque com um plástico.
A reportagem circulou pela comunidade na última segunda-feira (12) e flagrou muitas casas com baldes cheios de água nas garagens e nos quintais, sem nenhum tipo de vedação.
Na comunidade Morro da Lua, a Folha também flagrou locais com pneus abandonados, lixo e caixas d'água destampadas e cheias de larvas que podem ser do mosquito Aedes aegypti, que transmite dengue, zika e chikungunya.
De acordo com um morador, os ventos fortes do último mês arrancaram as tampas e as pessoas não perceberam. "Tem várias [ caixas d'água] sem tampa por aqui", relatou o homem.
Pela manhã, quando há abastecimento, Jacinta Góes de Souza, 51, enche os baldes e aproveita para lavar a roupa acumulada. Para beber, compra água de um vizinho.
Marlene Campos dos Santos, 63, tem um restaurante de comida mineira na comunidade. Em uma área de serviço do estabelecimento ela mantém três galões destampados com água para lavar a louça. A água que usa para cozinhar ela precisa comprar.
A reportagem a questionou sobre o risco de a dengue. Para a comerciante, como os galões permanecem em local com porta fechada, não há perigo. Marlene conta que, há mais de um ano, ela e o filho pegaram a doença. Diz acreditar que o foco dos mosquitos estivesse em uma poça em frente à sua casa, no Jardim Ingá.
Armazenar água de forma inadequada potencializa o risco de formação de criadouros de Aedes aegypti.
"Anos atrás, em 2014 e 2015, já vivemos essa situação de uma epidemia de dengue relacionada à situação hídrica", diz Tamara Nunes de Lima-Camara, professora associada ao Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da USP. Em agosto de 2014, 1 a cada 20 paulistas era submetido a racionamento de água e convivia com interrupções no abastecimento que duravam de quatro horas a dois dias seguidos.
Patrícia Pasquini e Rubens Cavallari (Folhapress)