A produção industrial brasileira avançou 1,8% em janeiro de 2026, de acordo com dados divulgados com ajuste sazonal, marcando a expansão mais elevada desde junho de 2024, quando a alta chegou a 4,4%. O resultado superou as projeções da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), que estimava crescimento de 1,1%, e também ultrapassou as expectativas do mercado financeiro, de 0,7%. Apesar do desempenho positivo, a expansão não compensou a queda acumulada de 2,2% registrada nos meses de novembro e dezembro de 2025.
O aumento na produção de janeiro foi impulsionado principalmente pela indústria de transformação, que cresceu 2,1%, e pela indústria extrativa, com avanço de 1,2%. Entre os 25 setores pesquisados, 19 registraram crescimento. Produtos químicos (+6,2%), veículos automotores, reboques e carrocerias (+6,3%) e coque, produtos derivados do petróleo e biocombustíveis (+2,0%) foram os segmentos que mais contribuíram para o resultado. Em contrapartida, a produção de máquinas e equipamentos recuou 6,7%, representando a maior influência negativa, e acumulou perda de 11,8% em dois meses consecutivos.
Analisando as grandes categorias econômicas, todos os segmentos apresentaram taxas positivas em janeiro. Bens de consumo duráveis registraram alta de 6,3%, bens de capital cresceram 2,0%, bens intermediários avançaram 1,7% e bens de consumo semi e não duráveis aumentaram 1,2%. Em relação a janeiro de 2025, a produção industrial cresceu 0,2%. No acumulado em 12 meses, o crescimento é de 0,5%, ligeiramente inferior à taxa de 0,6% registrada em dezembro de 2025.
O cenário para 2026 permanece marcado por fatores que podem influenciar o ritmo da produção. A manutenção da taxa Selic em 12% ao ano e a volatilidade econômica internacional são elementos considerados relevantes. Alterações recentes na política comercial dos Estados Unidos, incluindo a substituição de tarifas globais por uma sobretaxa uniforme temporária sobre importações, podem afetar a competitividade das exportações brasileiras. Além disso, o conflito no Irã elevou os preços do petróleo em mais de 30%, enquanto a demanda da Argentina por bens industriais apresenta sinais de desaceleração, impactando exportações do país.
Pesquisas de confiança do setor industrial refletem cautela entre empresários. O Sensor da Fiesp registrou 46,8 pontos em fevereiro, abaixo do nível de 50 pontos, que indica estabilidade. O Índice de Confiança do Empresário Industrial (ICEI), divulgado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), apresentou 48,2 pontos, mantendo-se abaixo da marca de 50 por 14 meses consecutivos. Esses indicadores sugerem expectativa de manutenção da desaceleração industrial no início de 2026.
Embora existam fatores de risco, alguns elementos podem contribuir para um desempenho positivo da indústria neste ano. A produção de derivados de petróleo e biocombustíveis deve apresentar recuperação parcial, enquanto investimentos em infraestrutura, incluindo concessões já contratadas, podem gerar demanda adicional. Programas governamentais voltados à ampliação da habitação e estímulo à mobilidade, como Move Brasil e Minha Casa Minha Vida, também devem interferir na produção industrial de forma indireta, por meio do aumento da demanda por materiais e equipamentos.
Diante desse contexto, a Fiesp revisou a projeção de crescimento da produção industrial de 0,6% para 0,9% em 2026, após alta de 0,6% em 2025. A expectativa é de que a indústria extrativa avance 6,2%, acima do crescimento de 4,9% observado no ano anterior, enquanto a indústria de transformação deve permanecer estável, com 0,0% de variação, refletindo principalmente os efeitos da taxa de juros elevada sobre investimento e crédito.
Comparando os desempenhos recentes, o setor de veículos automotores apresenta recuperação consistente desde o último trimestre de 2025, enquanto produtos químicos e derivados de petróleo registram variações positivas intermitentes, refletindo ajustes sazonais e oscilações na demanda doméstica e internacional. Já o setor de máquinas e equipamentos enfrenta dois meses consecutivos de retração, com impacto direto na média da indústria e possível influência sobre cadeias de produção relacionadas a bens de capital.
Em síntese, o desempenho industrial de janeiro de 2026 mostra expansão pontual em vários segmentos, ao mesmo tempo em que evidencia fatores de pressão sobre determinados setores. O resultado reflete a combinação de recuperação parcial em segmentos específicos, limitações macroeconômicas e incertezas externas, fornecendo base para monitoramento contínuo ao longo do ano.