Por: Ana Laura Gonzalez

Debandada do PSDB na Alesp confirma perda de força em SP

Mudanças partidárias devem alterar a composição das bancadas a partir de março | Foto: Divulgação

Um encontro realizado na quinta-feira, 5 de fevereiro, entre o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, e parlamentares da federação PSDB-Cidadania na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) consolidou um movimento de migração partidária que vinha sendo articulado havia cerca de um ano. A partir de 4 de março, seis deputados estaduais do PSDB e um do Cidadania devem se filiar ao PSD, alterando de forma significativa a correlação de forças no Legislativo paulista.

Com a mudança, a federação PSDB-Cidadania deixa de ocupar a posição de terceira maior bancada da Casa, condição que manteve mesmo após sucessivas perdas eleitorais. O movimento simboliza mais um capítulo do encolhimento do PSDB em São Paulo, estado que por décadas foi seu principal reduto político e eleitoral.

Raízes paulistas e formação da hegemonia tucana

Fundado em 1988, a partir de uma dissidência do então MDB durante o período da Assembleia Constituinte, o PSDB teve desde a origem forte vinculação com lideranças paulistas. Entre seus fundadores estão nomes como Fernando Henrique Cardoso, Franco Montoro, Mário Covas e José Serra, figuras centrais da política nacional nas décadas seguintes.

Fim do domínio no governo estadual

A partir de 1994, o partido passou a dominar o Palácio dos Bandeirantes, elegendo o governador do estado em sete eleições consecutivas. A sequência foi interrompida apenas em 2022, quando Tarcísio de Freitas, então filiado ao Republicanos, venceu a disputa. A derrota do tucano Rodrigo Garcia naquele pleito foi interpretada internamente como o desfecho de uma crise prolongada.

Crise interna e recuos eleitorais

O desgaste foi agravado por disputas internas e pelo isolamento de lideranças tradicionais, em especial durante o governo de João Doria. O enfraquecimento se refletiu também no plano nacional, com a decisão inédita de não lançar candidatura própria à Presidência da República em 2022.

Derrotas nas eleições municipais aprofundam encolhimento

Dois anos depois, na janela partidária de 2024, oito vereadores tucanos da capital paulista deixaram a legenda. Nas eleições municipais, o PSDB não elegeu prefeitos em nenhuma capital brasileira e ficou sem representação na Câmara Municipal de São Paulo. No estado, o número de prefeituras governadas pelo partido caiu de 173 para 21.

A Alesp como último reduto do PSDB

Até recentemente, a Assembleia Legislativa ainda funcionava como um dos últimos bastiões do partido. A federação com o Cidadania garantia a terceira maior bancada e assegurava presença na Mesa Diretora, ocupada pelo deputado Barros Munhoz.

Nova composição reduz bancada da federação

Com a saída de sete dos onze parlamentares da federação — seis tucanos e um do Cidadania —, o grupo passará a contar com apenas quatro deputados, dois de cada legenda. O número equivale ao das bancadas do MDB e do PSB, atualmente empatadas como a oitava maior da Casa.

Parlamentares remanescentes avaliam cenários

Entre os remanescentes, a deputada estadual Carla Morando, do PSDB, afirmou que também pretende deixar o partido, embora ainda não tenha definido para qual sigla irá. Segundo ela, não participou da reunião com Kassab. Pelo Cidadania, Ana Carolina Serra declarou que, por ora, não considera mudar de legenda, mas reconheceu a ansiedade entre correligionários diante da proximidade da janela partidária.

Os deputados Bruna Furlan, do PSDB, e Ortiz Júnior, do Cidadania, não se manifestaram até o fechamento desta edição.

Direção estadual reage e critica cooptação

O presidente estadual do PSDB, Paulo Serra, classificou a movimentação como uma forma desrespeitosa de cooptação e criticou o que chamou de “canibalismo” entre partidos da base do governador Tarcísio de Freitas. Segundo ele, a prática não contribui para a construção de um projeto nacional de centro.

Em nota, Serra afirmou que o partido passa por um processo de transformação e destacou a entrada de novos quadros como parte de uma tentativa de reconstrução.

Disputa eleitoral deve redefinir forças em outubro

As mudanças partidárias ocorrem às vésperas das eleições de outubro, que irão redefinir a composição da Assembleia Legislativa paulista para os próximos quatro anos.