Os acidentes envolvendo escorpiões têm se tornado cada vez mais frequentes nas áreas urbanas, e a desinformação sobre esses animais contribui para agravar o problema, segundo especialistas. Em 2024, os escorpiões foram responsáveis pela maioria dos acidentes com animais peçonhentos no Brasil, com 198 mil casos registrados entre os 337 mil contabilizados pelo Ministério da Saúde. No estado de São Paulo, foram notificados 42 mil acidentes do tipo no mesmo período informado.
A predominância desses aracnídeos nas cidades está relacionada à sua capacidade de adaptação ao ambiente urbano, onde encontram alimentos como baratas, água e abrigo. Eles costumam se esconder em locais escuros e podem entrar nas residências por ralos, calhas, tubulações e caixas de fiação sem vedação. Nem os andares mais altos estão totalmente livres, já que os escorpiões conseguem escalar superfícies extremamente irregulares.
O aracnólogo e tecnologista do Laboratório de Coleções Zoológicas do Instituto Butantan, Paulo Goldoni, alerta para a necessidade de diferenciar informações corretas de mitos populares. Segundo ele, o uso de produtos químicos, como vinagre, água sanitária ou inseticidas caseiros, não é eficaz para controlar escorpiões. "Mesmo que alguns animais sejam eliminados, outros podem se dispersar, aumentando o risco de acidentes. Além disso, produtos químicos causam estresse no aracnídeo e podem favorecer sua reprodução", explica o especialista.
O escorpião tem reprodução rápida: vive entre três e quatro anos e realiza pelo menos quatro ciclos reprodutivos por ano, gerando cerca de 20 filhotes a cada vez. Goldoni destaca que o animal possui a capacidade de fechar os estigmas respiratórios, o que ajuda a sobreviver em ambientes com pesticidas. Para prevenção, recomenda-se evitar o acúmulo de materiais de construção e lixo, instalar telas em ralos e pias e não interferir nos predadores naturais, como aves, anfíbios e mamíferos.
Outro mito frequente é a utilização de "garrafadas" ou torniquetes no local da picada. O especialista reforça que não há eficácia comprovada dessas práticas e que elas podem aumentar o risco de complicações e infecções. A orientação correta, segundo informações, é lavar a área com água e sabão e procurar atendimento médico imediato, levando o animal ou uma fotografia, se possível.
O uso de bandejas de ovos como "armadilhas caseiras" também não é recomendado, segundo orientações. O material é indicado apenas para transporte de escorpiões vivos por profissionais, conforme o Manual de Controle de Escorpiões do Ministério da Saúde, principalmente em biotérios como o do Instituto Butantan, que utiliza os animais para extração de veneno e produção de soro antiescorpiônico.
Não há comprovação científica de que plantas como alecrim, arruda, lavanda ou citronela afastem escorpiões. A única relação conhecida envolve a espécie Tityus neglectus, encontrada no Nordeste, que se abriga em bromélias e não oferece risco grave aos humanos. A criação de galinhas também não é considerada eficaz para controle, já que a ave é diurna e o escorpião, noturno, além de representar risco sanitário por possíveis doenças transmitidas pelas fezes.
Ao encontrar um escorpião em casa, o recomendado é não tentar pegar o animal com as mãos. A Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo orienta o uso de luvas, calçados fechados e calças compridas, além de pinça ou graveto para transferi-lo a um frasco plástico com tampa perfurada, que deve ser levado ao Centro de Controle de Zoonoses. Caso a captura não seja possível, o animal deve ser eliminado de forma segura, sem o uso de químicos, e encaminhado para estudo.
"O registro de acidentes e animais encontrados é essencial para aprimorar os dados epidemiológicos, entender a distribuição do aracnídeo e formular estratégias de prevenção", reforça Goldoni. As medidas preventivas e a informação correta são apontadas como as formas mais eficazes de reduzir o risco de envenenamentos e controlar a presença de escorpiões nas áreas urbanas.